De onde vem a ideia
A escola do Ajax não começa na base, mas na equipe principal. Rinus Michels desenvolveu a partir de 1965, com Johan Cruyff como jogador central, aquilo que depois se chamou Totaalvoetbal: troca de posições, marcação por zona, pressão alta, cada jogador precisa entender todas as posições. Com isso o Ajax ganhou a Taça dos Campeões em 1971, 1972 e 1973.
A base assumiu essa ideia de jogo como objetivo de formação. Quem quisesse jogar pelo Ajax precisava entendê-la. Esse é o núcleo até hoje: a base forma para um jogo determinado, não para futebol em geral.
O próprio Cruyff marcou a base duas vezes. Como treinador de 1985 a 1988 e, com mais força ainda, pelo chamado Plano Cruyff a partir de 2011 (mais abaixo). Entre os dois momentos, treinadores como Louis van Gaal construíram sobre o mesmo alicerce: o time campeão de van Gaal em 1995 era, estruturalmente, a aplicação das ideias de Michels com uma nova geração.
Desde 1996 a base treina em De Toekomst ("O Futuro"), o centro de formação ao lado da Johan Cruijff ArenA. O nome é o programa.
O modelo TIPS
TIPS é o elemento mais conhecido da formação do Ajax. Descreve segundo o quê os jogadores são escolhidos e avaliados:
- Techniek — técnica
- Inzicht — compreensão de jogo, discernimento
- Persoonlijkheid — personalidade
- Snelheid — velocidade
A ordem não é casual. A técnica vem primeiro porque o Ajax parte do princípio de que ela é mais treinável nos anos iniciais e dificilmente se recupera depois. O discernimento vem em segundo, porque o futebol do Ajax exige decisões: quando fecho, quando abro, quando jogo no terceiro homem. Personalidade significa disposição para assumir responsabilidade, coragem com a bola, vontade de aprender. A velocidade vem deliberadamente por último — não por ser sem importância, mas por ser a menos treinável e a que menos diz sobre o jogador futuro.
O que TIPS significa no dia a dia: cada jogador é avaliado regularmente ao longo dessas quatro dimensões. A avaliação é a base do seu plano individual de desenvolvimento. Um jogador com técnica excelente e discernimento fraco recebe um programa diferente de outro com o perfil invertido.
O TIPS foi variado e complementado ao longo dos anos. Críticos dentro do próprio clube observaram que a velocidade ganhou importância no futebol moderno e que o modelo reflete isso de menos. É uma grade, não uma fórmula.
Os princípios de formação
Desenvolvimento individual antes do resultado coletivo
O princípio mais importante e o mais difícil de sustentar. As equipes de base do Ajax não devem ganhar campeonatos. Devem produzir jogadores para a equipe principal. Um treinador que leva seu sub-15 ao título com bolas longas fracassou, do ponto de vista do Ajax.
Na prática isso significa: o tempo de jogo é distribuído conforme a necessidade de desenvolvimento, não conforme o rendimento. As posições são ocupadas conforme o objetivo de aprendizagem, não conforme a probabilidade de vitória. Os resultados são registrados, não comemorados.
Um sistema como meio de ensino
Todas as equipes de base do Ajax jogam no 4-3-3 com as clássicas numerações holandesas: 1 goleiro, 2 e 5 laterais, 3 e 4 zagueiros, 6 volante, 8 e 10 meio-campo central, 7 e 11 pontas, 9 atacante. Os números no Ajax são até hoje funções, não números de camisa.
O sistema não é dogma para a equipe principal. É um meio de ensino para a base. Como cada posição tem uma função claramente definida, um treinador consegue explicar a um garoto de doze anos exatamente o que o 6 faz na saída de bola e o que o 8 faz na pressão. E como todas as equipes jogam o mesmo sistema, um jogador pode subir do sub-13 para o sub-14 sem ter de aprender de novo.
Troca de posições nos anos iniciais
Até cerca do sub-13, os jogadores do Ajax atuam em várias posições. O futuro zagueiro aprende, como volante, o que é receber a bola de costas para o adversário. O futuro ponta aprende, como lateral, o que sente o jogador que ele depois vai pressionar.
É herança direta de Michels: o Totaalvoetbal pressupõe que cada jogador entenda cada posição. A especialização vem depois, em geral a partir do sub-14 ou sub-15. Como planejar a rotação na prática está no guia sobre troca de posições no futebol de base.
Positiespel — o jogo de posição
O positiespel holandês é o precursor do juego de posición catalão e está por toda parte na base do Ajax. 4 contra 2, 5 contra 3, 6 contra 3 em campos pequenos. Depois, jogos de posição com zonas e apoios.
Ao contrário do rondo, jogado em círculo, o positiespel acontece em geral em retângulos com direção. A bola não deve apenas ser mantida, mas levada de um lado ao outro. Isso treina o que caracteriza o futebol do Ajax: saída de trás, jogo pelo meio, mudança de lado.
Técnica sob pressão de jogo, mas também isolada
Aqui o Ajax se diferencia da La Masia. O Ajax treina técnica também de forma isolada — condução, fintas, técnica de passe com os dois pés, domínio em movimento. O método Coerver, desenvolvido nos anos 1970 pelo holandês Wiel Coerver, marcou o futebol de base holandês como um todo, e o Ajax não é exceção.
A proporção, porém, é limitada. A maior parte da sessão são jogos. A técnica isolada é um bloco no início, não o núcleo.
O um contra um como base
Os pontas do Ajax devem saber eliminar adversários. Por isso o um contra um é treinado em todas as categorias — ofensiva e defensivamente, em jogos com pontos para dribles bem-sucedidos, em torneios de um contra um, em jogos de posição com a regra de que o ponta precisa encarar antes do passe.
O treinador como formador
Os treinadores de base do Ajax fazem parte de um departamento de formação com metodologia comum. Muitos são ex-jogadores do Ajax. O clube manteve durante anos uma formação de treinadores própria, para garantir que se fale a mesma língua. Um treinador que traz a sua própria ideia de jogo não é desejado.
O Plano Cruyff: o que acontece quando o método é radicalizado
Em 2010 Johan Cruyff criticou publicamente o estado do seu clube. Treinadores demais sem passado no Ajax, foco de menos no desenvolvimento individual, jogadores medianos demais. Em 2011 ele se impôs: ex-jogadores do Ajax assumiram posições-chave, Wim Jonk virou responsável pela base, Dennis Bergkamp trabalhou com jovens atacantes, Frank de Boer treinou a equipe principal.
O plano tinha princípios claros:
- O treino individual passa a ser o núcleo. Cada talento recebe um plano pessoal de desenvolvimento e trabalho individual com treinadores especializados.
- As equipes de base jogam exclusivamente para desenvolver jogadores. Os resultados são irrelevantes.
- Ex-jogadores substituem treinadores formados sem passado no Ajax, porque encarnam a ideia de jogo.
- O Ajax deve voltar a ser o que era sob Michels e Cruyff: a melhor formação do mundo, não um time de compras.
O plano teve êxitos mensuráveis. Jogadores como Matthijs de Ligt, Frenkie de Jong, Donny van de Beek e Justin Kluivert foram formados ou lançados nessa fase. Frank de Boer ganhou quatro campeonatos seguidos.
E mesmo assim fracassou. Em 2015 Wim Jonk deixou o clube em conflito e Cruyff se retirou. As disputas giravam em torno de poder, estrutura e da questão de se uma base pode mesmo trabalhar de forma independente da equipe principal. Bergkamp saiu em 2017.
O que o Plano Cruyff mostra: filosofia de formação e direção do clube precisam combinar. Uma metodologia radical sem estrutura estável se desmonta sozinha — mesmo quando produz jogadores.
O modelo de negócio
O Ajax não forma apenas por idealismo. O clube fez disso um modelo de negócio: desenvolver, firmar na equipe principal, vender. De Ligt por cerca de 75 milhões à Juventus, de Jong por cerca de 75 milhões ao Barcelona, Antony por cerca de 95 milhões ao Manchester United — sempre quantias base, os valores exatos variam conforme a fonte.
O modelo tem um preço. Os talentos deixam o clube cada vez mais cedo, muitas vezes antes de terem chegado à equipe principal. Ryan Gravenberch foi aos 20 anos para o Bayern. A base perde assim a última e mais importante etapa de formação: o tempo entre o sub-19 e a titularidade.
Bergkamp criticou isso publicamente. Outros no clube veem como consequência inevitável da posição de mercado: o Ajax não consegue competir na Eredivisie com salários ingleses.
As críticas
A independência do resultado é teoria. Todo treinador de base, também no Ajax, está sob pressão. Os jogadores querem ganhar, os pais querem ganhar, o clube quer tornar os talentos visíveis. O princípio está certo; a aplicação nunca é completa.
O 4-3-3 fixo tem limites. Como meio de ensino é forte. Como visão de mundo fica estreito. Jogadores que no Ajax aprenderam apenas um sistema tiveram de se readaptar em outros campeonatos. Não é argumento contra o sistema, mas contra a sua absolutização.
A escola do Ajax vive do ambiente holandês. Formatos reduzidos no futebol infantil, formação técnica como tradição nacional, uma federação que defende a mesma ideia de jogo. Um clube de outro país que copie o Ajax não tem esse ambiente.
Os últimos anos foram agitados. Depois da semifinal de 2019 vieram títulos e depois o caos: trocas na direção, contratações erradas, uma temporada 2023/24 esportivamente fraca. A base não ficou imune a isso. Uma boa formação não protege de uma má direção.
O método é menos documentado que a sua fama. Como a La Masia, o Ajax não publica currículo. Muito se apoia em declarações de ex-treinadores e jogadores.
Aplicação: o que você pode aproveitar
Esta seção é a nossa interpretação.
O Ajax é, para treinadores de base, a mais acessível das grandes escolas. Os princípios são concretos e não dependem de densidade de talento para funcionar.
Decida-se: formar ou vencer?
As duas coisas ao mesmo tempo raramente funcionam. Quem forma distribui o tempo de jogo conforme a necessidade de desenvolvimento, coloca jogadores em posições incomuns e aceita derrotas por isso. Diga isso aos seus jogadores e aos pais no início da temporada — e cumpra quando doer.
Use um sistema fixo como meio de ensino
Não por ser o melhor sistema. Mas porque funções claras permitem explicar a cada jogador exatamente o que a sua posição faz na saída de bola, na pressão e na transição. Um jogador que entende a sua função aprende mais rápido que outro que ouve coisas diferentes toda semana.
Avalie em dimensões, não em notas
Use o TIPS ou uma grade própria. Como estruturar a avaliação de jogadores de forma sistemática está descrito em outro lugar. Avalie cada jogador duas ou três vezes por temporada ao longo das dimensões. Converse com ele sobre isso. Derive daí no que ele vai trabalhar. Esse é o núcleo do plano individual de desenvolvimento — e não custa infraestrutura, só tempo.
Trocar de posição até o sub-13
Cada jogador atua ao longo de uma temporada em pelo menos três posições. O atacante defende, o zagueiro constrói. Só a partir do sub-14 se especializa.
O um contra um em cada sessão
Cinco a dez minutos por sessão para situações de um contra um — com finalização, em campos pequenos, com posições de partida variadas. Isso treina, na ofensiva e na defensiva, aquilo que fica de fora nos jogos com muitos jogadores.
Positiespel com direção
Em vez de rondo em círculo: 4 contra 2 ou 5 contra 3 num retângulo com duas zonas finais. A bola precisa ir de uma zona à outra. Isso treina a saída e a mudança de lado, não apenas a posse.
Técnica curta e isolada, depois para o jogo
Um bloco de dez minutos de condução, fintas ou técnica de passe no início faz sentido no futebol infantil — o Ajax também o faz. Depois, direto para o jogo em que essa técnica é necessária.
O essencial
- O Ajax forma para um jogo determinado — o 4-3-3 marcado por Michels e Cruyff, com jogo de posição e pressão. A base serve à equipe principal, não o contrário.
- TIPS — técnica, discernimento, personalidade, velocidade — é uma grade de avaliação, não uma fórmula. Organiza o desenvolvimento individual.
- O desenvolvimento individual está acima do resultado coletivo. O princípio é claro, a aplicação nunca é completa.
- O sistema fixo é um meio de ensino: funções claras, mesma língua em todas as categorias.
- Troca de posições até o sub-13, um contra um em todas as idades, positiespel com direção.
- O Plano Cruyff mostra: metodologia sem estrutura estável de clube se desmonta sozinha, mesmo produzindo jogadores.
A avaliação de jogadores no Coach OS trabalha com quatro áreas e 17 atributos — uma lógica parecida com a do TIPS, só que mais detalhada. A pergunta sobre o que você deduz disso para cada jogador nenhuma grade responde. Essa você responde.
FAQ: perguntas frequentes
Fontes e leituras
- David Winner: Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football — sobre a origem do Totaalvoetbal e a cultura futebolística holandesa.
- Johan Cruyff: Meu Futebol — sobre a escola do Ajax na visão do seu principal representante.
- Entrevistas com Wim Jonk, Dennis Bergkamp e Ruben Jongkind sobre o Plano Cruyff e o desenvolvimento individual, espalhadas por veículos holandeses e internacionais entre 2011 e 2017.
- Documentários e reportagens sobre De Toekomst, entre outros da UEFA e da federação holandesa KNVB.
- Wiel Coerver: Técnica de futebol e obras seguintes — sobre o treino técnico isolado no futebol de base holandês.
Nota sobre as fontes: o Ajax não publica currículo de formação. A descrição apoia-se em declarações concordantes de ex-treinadores e jogadores e em observações externas. Os valores de transferência são quantias base segundo a imprensa e variam conforme a fonte.