De onde vem o modelo
Até os anos 2000, o Benfica era um clube com uma história grandiosa, mas com balanços financeiros preocupantes. As conquistas da Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1961 e 1962 tinham ficado no passado distante, as dívidas eram elevadas e o trabalho de base estava fragmentado em vários locais de Lisboa.
Sob a presidência de Luís Filipe Vieira, que assumiu em 2003, a academia foi repensada. A decisão de construir um centro de treinamento unificado teve um motivo esportivo e outro econômico. Esportivo porque o Benfica não conseguia competir com o Porto, que dominava a Europa nos anos de José Mourinho. Econômico porque o clube percebeu que os talentos portugueses tinham no mercado europeu uma valorização muito superior ao investimento necessário para manter uma academia de base.
O campus no Seixal foi inaugurado em 2006. O complexo inclui vários gramados naturais e campos sintéticos, alojamento, escola, instalações médicas e os campos de treinamento da equipe principal. Todas as categorias de base e os profissionais treinam no mesmo local.
Outras duas decisões moldaram o modelo. Em 2012, a federação portuguesa permitiu a entrada de times B na segunda divisão – o Benfica B tornou-se a ponte ideal entre a base e o profissional. Além disso, com o Benfica Lab, o clube estruturou um departamento de ciência do esporte, análise de dados e avaliação de desempenho que atende a todas as equipes.
A estrutura
Tudo em um só lugar
O campus é a fundação de tudo. Um jogador de doze anos vê diariamente onde o time principal treina. Um jogador profissional vê de onde vêm os jovens talentos. Os treinadores de cada categoria trocam informações todos os dias. Essa proximidade física não é um mero detalhe: é a razão pela qual a transição interna no Benfica realmente funciona, enquanto em muitos outros clubes existe apenas no papel.
Captação na Região Metropolitana de Lisboa
O Benfica concentra a prospecção de talentos principalmente na Grande Lisboa, que concentra cerca de três milhões de pessoas – aproximadamente um terço da população de Portugal. As crianças ingressam cedo nas escolinhas e nos programas de parceiros do Benfica; as mais talentosas migram para a academia entre os oito e os doze anos. Nessa busca, o clube disputa espaço diretamente com o Sporting, cuja academia em Alcochete fica a poucos quilômetros de distância. A concorrência pelas mesmas promessas elevou o padrão de formação de ambos os lados.
Soma-se a isso uma ampla rede de contatos nos países lusófonos – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Brasil –, de onde chegam atletas para o Seixal. Renato Sanches e Nélson Semedo são exemplos de atletas criados nos subúrbios de Lisboa com raízes familiares em Cabo Verde e Guiné-Bissau.
O alojamento
Cerca de 70 atletas moram no campus, muitos deles vindos do norte de Portugal, das ilhas ou do exterior. Escola, treinos, alimentação e suporte multidisciplinar acontecem no mesmo endereço. Essa estrutura exige alto investimento, mas permite ao Benfica captar jogadores de todo o país sem obrigar a mudança imediata de toda a família.
Benfica B como ponte de transição
Esse é o fator que mais diferencia o Benfica da maioria dos modelos europeus. O Benfica B disputa a segunda divisão portuguesa – enfrentando equipes profissionais adultas, competindo por pontos e diante de torcida real. Um jovem de 18 anos recém-saído da categoria de base passa um ou dois anos jogando futebol profissional adulto antes de ser promovido à equipe principal ou ser negociado.
Bruno Lage comandou o Benfica B antes de assumir o time principal em 2019 e ser campeão nacional – com uma equipe na qual promoveu João Félix, Rúben Dias e Florentino Luís diretamente da equipe B. Renato Paiva, Nélson Veríssimo e outros profissionais trilharam o mesmo percurso.
Essa vivência competitiva explica por que muitos talentos portugueses parecem mais maduros aos 20 anos do que jovens de ligas onde os times reservas competem apenas em torneios regionais ou amadores: eles já trazem na bagagem dois anos de futebol profissional adulto e competitivo.
Benfica Lab
O departamento de ciência esportiva dá suporte a todas as faixas etárias: avaliação de desempenho, controle de carga, análise de vídeo, nutrição e psicologia esportiva. Para os jovens em formação, isso se traduz em relatórios individualizados desde cedo. O clube monitora o desenvolvimento físico do atleta e ajusta as cargas e os estímulos de treino sob medida.
Um aspecto amplamente documentado é o foco em individualização. Cada jogador tem um plano de desenvolvimento individual revisado com frequência. A academia conta com psicólogos integrados ao dia a dia – não para atuar apenas em momentos de crise, mas como parte fundamental do processo formativo.
Como se treina
O Benfica não disponibiliza uma cartilha pública de treinamento. Contudo, relatos de treinadores e observadores convergem nos seguintes pontos:
Identidade de jogo unificada em todas as categorias. Da mesma forma que outras grandes referências mundiais — como La Masia e Ajax —, todas as equipes do Benfica compartilham princípios de jogo parecidos: construção desde trás, jogo de posição, domínio da posse de bola e pressão alta pós-perda. As formações táticas 4-3-3 ou 4-2-3-1 funcionam como ponto de partida, mas o foco primordial está nos princípios comportamentais.
Técnica refinada como base, tomada de decisão como meta. A formação em Portugal prioriza historicamente o gesto técnico sob pressão de tempo e espaço. Isso tem relação direta com o futsal, modalidade muito praticada no início da formação esportiva no país – exigindo raciocínio ágil, controle em espaços reduzidos e alto número de toques na bola. Vários atletas de elite de Portugal passaram pelas quadras antes de migrarem para o gramado.
Jogos em campo reduzido. As categorias iniciais em Portugal jogam por muito tempo em formatos adaptados: 7 contra 7 até o sub-11 e 9 contra 9 até o sub-13. No dia a dia da academia, predominam jogos reduzidos envolvendo de quatro a sete jogadores por equipe.
Especialização por posição mais precoce. Ao contrário da abordagem do Ajax, o Benfica trabalha a especificidade de função mais cedo. A partir do sub-14, os atletas realizam trabalhos direcionados às demandas de cada posição, com sessões de treino individual paralelas às atividades coletivas.
A Periodização Tática como suporte. Portugal é o berço de Vítor Frade e da Periodização Tática. Muitos treinadores do Seixal estudaram na Universidade do Porto ou nas faculdades de Lisboa, onde o método é ensinado a fundo. O planejamento semanal da academia segue lógica similar: jogos conceituais em vez de preparação física descontextualizada, com dias organizados por tensões, volumes e dinâmicas específicas. A rigidez dessa aplicação varia conforme a comissão técnica.
A competição como ferramenta pedagógica. As categorias de base do Benfica jogam para disputar títulos. A equipe sub-19 conquistou a UEFA Youth League em 2022. Ao contrário do que prega a filosofia do Ajax, em que o resultado final é colocado em segundo plano, o Benfica encara a vitória e a competitividade como parte do processo de formação.
O modelo de vendas
O Benfica desenvolve atletas com o objetivo declarado de vendê-los. A diretoria não esconde essa estratégia. João Félix foi vendido em 2019 por cerca de 126 milhões de euros ao Atlético de Madrid, com 19 anos e apenas uma temporada consolidada na equipe principal. João Neves transferiu-se em 2024, aos 19 anos, para o Paris Saint-Germain; Gonçalo Ramos seguiu para o mesmo clube em 2023. Rúben Dias, Bernardo Silva e João Cancelo foram todos negociados antes de completarem 25 anos.
A lógica financeira é direta: a venda de um jovem de 19 anos por 100 milhões de euros financia o custo de operação da base por uma década inteira. O Benfica reinveste esse capital em captação, novas tecnologias, infraestrutura e qualificação de treinadores. O ciclo se sustenta com alta rentabilidade.
O ônus desse sistema: nos últimos 15 anos, o Benfica raramente conseguiu segurar um elenco talentoso por muito tempo. Cada safra vencedora costuma ser negociada após uma ou duas temporadas. O time domina as competições nacionais, mas no cenário europeu quase nunca passa das quartas de final.
As críticas
Vendas precoces interrompem etapas de maturação. Semelhante ao que ocorre no Ajax, muitas vezes o atleta deixa o clube antes de finalizar seu ciclo formativo. João Félix não reencontrou com consistência o rendimento que teve em sua temporada pelo clube lisboeta. Renato Sanches foi negociado aos 18 anos por 35 milhões de euros com o Bayern de Munique e não atingiu a projeção que se desenhava na época. Não se trata de uma falha de gestão do Benfica, mas expõe o limite de vender tão cedo.
A base a serviço do negócio. Formar jogadores para comercializá-los é uma estratégia de mercado viável, mas costuma alterar prioridades esportivas. Um atleta com alto valor de mercado tende a receber oportunidades e tratamentos distintos em relação a outro que não desperte interesse financeiro semelhante. Essa abordagem gera debates acalorados na própria imprensa esportiva portuguesa.
A rivalidade agressiva com o Sporting. Ambos os clubes monitoram os mesmos garotos nas mesmas regiões urbanas. Essa disputa eleva o nível técnico dos atletas, mas também amplia a pressão psicológica sobre famílias. Casos de aliciamento precoce, promessas contratuais e atritos institucionais são recorrentes nos bastidores.
Pouca documentação formal de metodologia. O principal diferencial do Benfica reside na eficiência da sua estrutura, e não na criação de uma metodologia autoral fechada. Não existe um manual ou compêndio teórico único para consulta. O que serve de espelho para outras equipes é, acima de tudo, o arranjo organizacional.
Aplicação: o que você pode aproveitar
Esta seção apresenta a nossa visão prática para o dia a dia.
O modelo do Benfica ensina muito sobre estrutura. Para um treinador isolado, poucos recursos de grande porte são replicáveis. Já para um clube ou escola de futebol, vários conceitos podem ser adaptados.
Trate a transição para a equipe adulta como um projeto prioritário
A maior perda de talentos no futebol amador e de base acontece na transição entre o sub-19 e o elenco adulto. O Benfica mantém um time inteiro dedicado a amortecer esse impacto. Um clube formador menor precisa ao menos traçar um planejamento: quais atletas do sub-19 vão treinar com os adultos a partir da metade da temporada? Quem vai ganhar minutos no time secundário? Quem supervisiona de perto esses atletas? Sem esse acompanhamento, o jogador acaba trocando de time ou desistindo da carreira.
Utilize o futsal e o campo reduzido como recurso formativo, não como improviso
As crianças formadas em Portugal jogam muito tempo sob pressão em espaços curtos. Promova atividades de futsal ou jogos de 3 contra 3 e 4 contra 4 em espaços restritos. O número de toques na bola por atleta sobe vertiginosamente, forçando decisões rápidas com a bola no pé.
Construa um plano de desenvolvimento individual por atleta
O Benfica Lab conta com tecnologias avançadas que fogem da realidade de clubes menores. Porém, o conceito básico pode ser executado: registre uma ficha de evolução para cada jogador com atualização semestral, focando em um ou dois pontos técnicos ou táticos a melhorar. Isso requer organização e olhar clínico, não softwares caros.
Competir para vencer e formar jogadores não são objetivos opostos
O Benfica rompe com visões extremas que desconsideram o placar. A base disputa campeonatos para levantar troféus sem abrir mão da formação técnica. A chave está no caminho escolhido para buscar o triunfo: mantendo a identidade tática, escalando os jogadores nas posições em que precisam ser desenvolvidos e distribuindo a minutagem entre o grupo – e não dependendo de bolas longas para um atleta de desenvolvimento físico precoce decidir sozinho.
Integre espaços e estimule o diálogo entre os treinadores
Quando as comissões técnicas trabalham no mesmo ambiente, as ideias circulam com naturalidade. Quando a base treina em um campo isolado longe da equipe de cima, a integração não acontece. Se a estrutura física permitir, unifique horários de treino, faça reuniões metodológicas regulares e adote um vocabulário tático comum entre todas as categorias.
O que você deve lembrar
- O Benfica Seixal reúne desde 2006 todas as categorias de base e a equipe principal em um centro de treinamento único. A convivência diária no mesmo espaço viabiliza a transição de talentos.
- O Benfica B na segunda divisão é o elo formador: concede até dois anos de experiência no futebol adulto competitivo antes do salto para a equipe de cima.
- O Benfica Lab estrutura avaliações individualizadas e controle de carga desde as faixas etárias iniciais.
- A captação concentra forças na Região Metropolitana de Lisboa e nos mercados de língua portuguesa, travando concorrência acirrada com o Sporting.
- O projeto apoia-se em um modelo autossustentável de venda sistemática de atletas, aceitando como efeito colateral a saída rápida de peças importantes e a constante reformulação de elenco.
- O que se pode absorver na prática é a estrutura de gestão: atenção criteriosa na transição para a equipe principal, uso planejado de campos reduzidos e futsal, planos individuais de treino e aproximação constante entre os treinadores.
O histórico do jogador no Coach OS acompanha a mudança de categoria ao fim da temporada – o novo treinador consegue checar exatamente os aspectos desenvolvidos no ciclo anterior. Essa funcionalidade representa o primeiro degrau daquilo que o Benfica realiza com o seu laboratório em todas as idades.
Perguntas frequentes
Fontes e leituras complementares
- CIES Football Observatory: relatórios estatísticos sobre clubes formadores e valores de transferências no futebol internacional.
- Reportagens investigativas e visitas guiadas ao Benfica Campus e ao Benfica Lab veiculadas na mídia esportiva internacional.
- Entrevistas com Bruno Lage, Renato Paiva e diretores das categorias de base sobre a dinâmica de promoção de jogadores e o uso da equipe B.
- Documentos e balanços técnicos da UEFA sobre a Youth League e centros de formação europeus.
- Materiais oficiais da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e depoimentos de jogadores da seleção nacional a respeito da relevância do futsal no início do desenvolvimento motor.
Nota sobre dados: o Benfica não divulga publicamente seu plano curricular de treinos. O funcionamento das sessões foi reconstituído com base em relatos e observações de campo. Os valores de transferências correspondem a estimativas de mercado e quantias divulgadas na imprensa especializada.