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Liverpool sob Klopp: como se treinavam a contrapressão e a intensidade

Jürgen Klopp assumiu o Liverpool em outubro de 2015, com o time em décimo. Saiu em maio de 2024 com uma Liga dos Campeões, um Campeonato Inglês, uma FA Cup, duas Copas da Liga, um Mundial de Clubes e uma Supercopa Europeia. Entre as duas datas houve três finais de Liga dos Campeões, uma temporada com 97 pontos sem título e o primeiro campeonato do clube em 30 anos. O que interessa aos treinadores no Liverpool é menos o sistema que o estado. As equipes de Klopp jogavam com uma intensidade que outras não conseguiam sustentar por 90 minutos. A pergunta que sempre volta: como se treina isso?

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De onde vem a ideia

O futebol de Klopp tem três raízes.

Mainz e Wolfgang Frank. Klopp jogou nos anos 1990 sob Wolfgang Frank no Mainz, um dos primeiros treinadores alemães a aplicar a defesa orientada à bola com linha de quatro e marcação por zona nos moldes de Sacchi. Klopp sempre chamou Frank de seu professor mais importante. A ideia de que a equipe bascula em bloco e de que a bola é o ponto de referência vem dali.

Dortmund e a contrapressão. Como treinador em Dortmund, de 2008 a 2015, Klopp desenvolveu com seu auxiliar Željko Buvač a contrapressão como arma principal. A frase de que nenhum armador do mundo é tão bom quanto uma boa situação de contrapressão vem dessa época. O Dortmund foi campeão em 2011 e 2012 e chegou à final da Liga dos Campeões em 2013.

Porto, via Lijnders. Pepijn Lijnders chegou ao Liverpool em 2014, para a academia, e em 2015 à comissão dos profissionais. Antes tinha trabalhado sete anos na base do FC Porto — no ambiente da periodização tática. Lijnders enfatizou muitas vezes que seu pensamento sobre planejamento de treino se formou ali. Por ele chegou um pedaço do Porto a Liverpool.

A isso somou-se uma estrutura de clube que combinava com Klopp: o diretor esportivo Michael Edwards e um departamento de análise sob Ian Graham, que procuravam jogadores por dados — Salah, Robertson, Wijnaldum e van Dijk foram comprados por perfis que se encaixavam no jogo de Klopp.

A ideia de jogo

A ideia de Klopp é aparentada à da Red Bull, mas menos esquemática. O estilo em detalhe está em a tática de Jürgen Klopp. Rangnick tem regras, Klopp tem princípios.

A contrapressão como primeira defesa

O momento após a perda da bola é o mais importante. Em vez de recuar, o grupo próximo à bola ataca de imediato. Formas de exercício para isso: treinar pressão e contrapressão. A justificativa é a mesma de Rangnick: o adversário está desorganizado, e a recuperação leva direto a uma chance.

No Liverpool a contrapressão estava estreitamente ligada ao jogo ofensivo. A equipe atacava de modo que, após a perda, já estivesse em posição de pressão — muitos jogadores perto da bola, trajetos curtos.

A pressão da linha de frente

Firmino, Mané, Salah — o trio dos grandes anos era antes de tudo uma linha de pressão. Firmino, como falso nove, iniciava a pressão; os pontas fechavam os laterais; o meio-campo subia. O adversário devia ser forçado ao erro antes de alcançar o meio-campo.

Verticalidade e velocidade

Após a recuperação, ia rápido. O Liverpool não era uma equipe de posse, ainda que os números tenham subido nos últimos anos. A ideia era: recupere a bola, dê o primeiro passe para a frente, esteja em cinco segundos diante do gol.

Os laterais como armadores

Trent Alexander-Arnold e Andy Robertson deram durante anos mais assistências que a maioria dos meio-campistas. O trio ofensivo fechava por dentro, os laterais recebiam a faixa. Isso foi menos invenção de Klopp que uma adaptação aos jogadores que ele tinha — e um exemplo de como ele ajustava os princípios aos jogadores, e não o contrário.

A emoção como conteúdo de treino

Klopp nunca tratou a emoção como assunto secundário. "Mentality Monsters" não era um slogan, mas o objetivo: uma equipe que fica mais dura depois dos reveses. Como isso se treina é menos palpável que um jogo — mas no livro de Lijnders ocupa muito espaço: conversas, rituais, o trato consciente com as derrotas.

Como se treina: o que Lijnders descreve

O livro Intensity é um diário, não um manual. Mas deixa ver padrões.

A intensidade é o objetivo do treino. A frase central de Lijnders é que a intensidade é a identidade da equipe. Treina-se não para ficar em forma, mas para agir no ritmo do jogo. Cada jogo é montado de modo a alcançar ou superar o ritmo da partida.

A semana segue o ritmo dos jogos. Como no morfociclo da periodização tática, cada dia tem uma função, dependendo da distância ao último e ao próximo jogo. Com dois jogos por semana — o que para o Liverpool era regra — isso encolhe para dois ou três dias de treino com papéis claros: recuperação, um dia intenso, preparação.

Jogos com regra de contrapressão. Lijnders descreve jogos em que a perda da bola é o ponto de partida. Campo pequeno, muitos jogadores, regras que premiam o ataque imediato. A carga física vem do próprio jogo.

Programas individuais ao lado do treino coletivo. O Liverpool trabalhava muito com preparação e recuperação individuais: força, prevenção, trabalho específico para jogadores determinados. Andreas Kornmayer, que veio do Bayern, dirigia o departamento físico. Ao contrário de Frade ou Seirul·lo, havia portanto uma parcela considerável de trabalho fora dos jogos — mas individual, não como corrida coletiva.

Especialistas para detalhes. Em 2018 o Liverpool contratou Thomas Grønnemark como treinador de arremesso lateral e foi ridicularizado por isso. O aproveitamento nos laterais subiu de forma mensurável. O clube trabalhou com a Neuro11, empresa de treino mental para bolas paradas, e tratou alimentação (Mona Nemmer) e sono como fatores de desempenho. O padrão: toda área que rende pontos percentuais ganha um responsável.

O vídeo como núcleo da análise. Peter Krawietz, segundo auxiliar de Klopp desde Mainz, era responsável pela análise de vídeo. Klopp o chamava muitas vezes de "o olho". A análise se concentrava nos momentos de pressão e nas situações de transição — as cenas em que a ideia de jogo funcionava ou não.

A pré-temporada: a marca mais conhecida de Klopp

As pré-temporadas de Klopp são famosas. Concentrações na Áustria ou na França, sessões duplas, testes de lactato, volumes que levam os jogadores ao limite. Já era assim em Dortmund e continuou em Liverpool.

A lógica é outra que a de Frade. Frade rejeita a pré-temporada clássica: a semana permanece sempre igual, só a complexidade sobe. Klopp constrói na pré-temporada, de propósito, uma base física da qual a temporada vive. A intensidade que o Liverpool mostrava no jogo era assentada no verão.

Essa é uma diferença metodológica real entre duas escolas bem-sucedidas. E é um indício de que a pergunta "trabalho físico isolado ou não" está menos resolvida do que a escola portuguesa ou a catalã afirmam.

As críticas

A carga. O Liverpool teve, em vários anos de Klopp, problemas consideráveis de lesões, sobretudo em 2020/21, quando quase toda a zaga ficou fora. Se isso vinha da abordagem de treino, do calendário ou do acaso não está esclarecido. Mas uma ideia de jogo que se apoia na intensidade tem um preço, e ele é pago em lesões e quedas de rendimento.

O desgaste. Klopp disse ele próprio que o seu modo de trabalhar se esgota depois de sete ou oito anos num mesmo lugar. Em Dortmund a última temporada desabou. Em Liverpool 2022/23 foi fraca, antes de a última voltar a ser boa. Um modelo de treino que vive do estado emocional do grupo não é infinitamente sustentável.

A dependência do treinador. Ao contrário da Red Bull ou do City, o futebol de Klopp está preso a Klopp. Não existe um catálogo de princípios que um sucessor pudesse assumir. Que Arne Slot tenha sido campeão em 2024/25 com quase o mesmo elenco fala pelo elenco, não por um sistema transferível — Slot joga de outro jeito.

A documentação é unilateral. O livro de Lijnders é valioso, mas é o livro de um envolvido sobre uma temporada com dois títulos. Avaliação crítica de fora existe pouca.

Klopp está na Red Bull. Desde o início de 2025 Klopp dirige a área de futebol da Red Bull. É coerente — as ideias de jogo são aparentadas — e mostra ao mesmo tempo que o futebol de Klopp, sem Klopp, não segue vivo em Liverpool.

Aplicação: o que você pode aproveitar

Esta seção é a nossa interpretação.

Klopp é a escola que mais tem a ver com postura. Isso a torna difícil de copiar — e, em partes, muito bem transferível.

A perda da bola é a situação mais importante

Treine-a. Jogo de 5 contra 5 em campo pequeno. Regra: após a perda, a equipe que perdeu tem cinco segundos para recuperar a bola. Se conseguir, vale como um gol. Conte em voz alta. A equipe aprende que a perda não é um fim, mas um começo.

Treine no ritmo do jogo ou não treine

A frase central de Lijnders vale para qualquer campeonato. Um jogo mais lento que a partida não treina para a partida. Se o ritmo cai: campo menor, regra mais dura, pausa. Não seguir jogando.

Dê a cada dia de treino um papel

Com duas sessões: uma intensa, uma preparatória. A intensa fica longe do jogo — terça ou quarta. A preparatória é curta, rápida, com bolas paradas e sem fadiga. Nunca dois dias iguais.

Procure os detalhes que ninguém treina

Arremessos laterais. Saídas de bola. A reposição do goleiro. Em cada jogo há trinta ou quarenta dessas situações que nenhum treinador amador treina. Dez minutos por semana para uma delas rendem mais que mais uma forma de passe.

Construa a base na pré-temporada

Ao contrário da escola portuguesa, a experiência de Klopp fala a favor de fazer nas primeiras semanas mais trabalho físico que no resto da temporada. Não com corridas no bosque — com jogos de volume alto. A temporada vive disso.

A emoção é conteúdo de treino

Como a sua equipe reage a um gol sofrido é treinável. Jogos que começam com o marcador em desvantagem. Jogos em que um gol do adversário significa que o próximo ataque precisa sair imediatamente. Não discursos de motivação — situações em que a reação é exercitada.

O essencial

  • O futebol de Klopp é defesa orientada à bola vinda de Wolfgang Frank, contrapressão vinda de Dortmund e periodização com influência do Porto, via Pepijn Lijnders.
  • A intensidade é o objetivo do treino. Os jogos são disputados no ritmo da partida ou interrompidos.
  • A semana segue o ritmo dos jogos, com papéis claros por dia — com dois jogos por semana, reduzida a recuperação, um dia duro e preparação.
  • Ao contrário de Frade e Seirul·lo, Klopp constrói uma base física na pré-temporada. É uma diferença real entre escolas bem-sucedidas.
  • Especialistas para detalhes: arremessos, bolas paradas, alimentação, sono, treino mental.
  • Os limites: carga alta, desgaste ao longo dos anos, vínculo à pessoa de Klopp.

O planejamento semanal no Coach OS define focos por sessão ao longo da temporada. Qual sessão é a dura e qual é a preparatória, quem decide é você — a estrutura para isso está pronta.

FAQ: perguntas frequentes

O que significa contrapressão?+
O ataque imediato ao adversário após a perda da própria bola, para recuperá-la antes que ele se organize. Klopp a chamou de melhor armador do mundo.
Qual é a diferença entre Klopp e Rangnick?+
A mesma origem — defesa orientada à bola, pressão, transição. Rangnick trabalha com regras e padronização, Klopp com princípios e emoção. O futebol de Rangnick é transferível, o de Klopp está preso à pessoa. Desde 2025 Klopp trabalha na Red Bull.
O que está no livro de Lijnders?+
Intensity é um diário de treino da temporada 2021/22. Descreve o planejamento semanal, os jogos, as conversas e as decisões do dia a dia. É uma das poucas fontes primárias sobre o trabalho de treino de uma equipe de ponta.
Por que as pré-temporadas de Klopp eram tão duras?+
Porque Klopp assenta no verão a base física de uma temporada. Isso o distingue da escola portuguesa e da catalã, que querem obter a condição exclusivamente do jogo.
O futebol de Klopp funciona na base?+
Os princípios sim: a perda da bola como situação de treino, o ritmo de jogo como padrão, dias com papéis claros. A intensidade precisa ser adequada à idade — blocos mais curtos, mais pausas.

Fontes e leituras

  • Pepijn Lijnders: Intensity: Inside Liverpool FC — a fonte primária, diário de treino da temporada 2021/22.
  • Raphael Honigstein: Klopp: Bring the Noise — biografia com foco na origem da ideia de jogo, em Wolfgang Frank e em Dortmund.
  • Raphael Honigstein: Das Reboot — sobre o desenvolvimento do futebol de pressão na Alemanha.
  • Entrevistas com Peter Krawietz, Andreas Kornmayer e Thomas Grønnemark sobre o trabalho de detalhe.
  • Ian Graham: How to Win the Premier League — sobre a montagem de elenco baseada em dados no Liverpool.

Nota sobre as fontes: a descrição do treino apoia-se sobretudo em Lijnders, ou seja, numa perspectiva de dentro. As afirmações sobre lesões são observação, não uma relação de causa e efeito demonstrada.

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