CoachOS
Base de conhecimento

A periodização do futebol de Raymond Verheijen: forma sem preparação física

Raymond Verheijen é o metodólogo de treino mais contestado do futebol europeu. O holandês foi auxiliar de Guus Hiddink na Coreia do Sul, na Austrália e na Rússia, trabalhou com Dick Advocaat e com Gary Speed no País de Gales e assessorou clubes por toda a Europa. E há anos ataca publicamente treinadores que, segundo ele, sobrecarregam seus jogadores — Guardiola, Wenger, Klopp, van Gaal, com nomes e números. Isso lhe rendeu inimigos e também seguidores que ensinam seu método pelo mundo inteiro. A World Football Academy, que ele fundou, forma treinadores segundo seu modelo.

📖 Tempo de leitura: 13 minutos ⚽ Base de conhecimento Coach OS

A ideia de fundo: o que é condição futebolística

O ponto de partida de Verheijen é uma definição. Preparadores físicos clássicos medem resistência, força e velocidade como grandezas isoladas: consumo de oxigênio, impulsão, tempo de sprint. Verheijen considera isso o erro de base.

Condição futebolística é a capacidade de repetir ações de futebol com alta qualidade, muitas vezes. Não correr. Não saltar. Ações de futebol: dar um passe, disputar um duelo, arrancar em profundidade, acionar uma pressão. Um jogador que aos 80 minutos ainda toma a mesma decisão com a mesma execução que aos 10 está em forma. Um jogador com excelentes valores de laboratório que não consegue isso, não está.

Daí nasce o seu modelo de ação. Toda ação de futebol tem três etapas:

1. Comunicação — o jogador percebe o que fazem companheiros, adversários e bola.

2. Decisão — ele escolhe uma ação.

3. Execução — ele a realiza.

A fadiga ataca as três etapas. Um jogador cansado enxerga menos, decide pior e executa com menos precisão. Quem treina só a execução — as pernas — treina um terço. Por isso a condição futebolística precisa ser trabalhada em situações que exijam as três etapas: em jogos.

Até aqui, a conclusão é a mesma de Frade. A diferença vem agora.

As quatro dimensões da forma

Verheijen decompõe a condição futebolística em quatro dimensões que se distinguem fisiologicamente e por isso precisam ser treinadas de modos diferentes:

1. Explosividade. A capacidade de executar uma ação de futebol com intensidade máxima — um sprint, um duelo, uma mudança de direção. Fisiologicamente: força por unidade de tempo.

2. Sustentar a explosividade ao longo de muitas ações. A capacidade de manter a qualidade das ações por 90 minutos. O jogador que aos 85 minutos ainda tem o sprint que tinha aos 5.

3. Recuperação entre ações. Com que rapidez um jogador está pronto para a ação seguinte depois de uma intensa. No futebol, entre dois sprints há muitas vezes apenas segundos. Quem se recupera mais rápido consegue esprintar mais vezes.

4. Recuperação entre séries. Com que rapidez ele está pronto para a série seguinte depois de uma sequência de ações intensas — uma fase ofensiva com vários sprints, por exemplo.

Cada dimensão corresponde a um tipo de jogo. Esse é o núcleo de Verheijen e a sua diferença em relação a Frade: ele diz exatamente que jogo treina que dimensão.

DimensãoTipo de jogoCaracterísticas
ExplosividadeJogos pequenos, do 1 contra 1 ao 4 contra 4Curtos, intensidade máxima, pausas longas, poucas repetições
Sustentar a explosividadeJogos médios, do 5 contra 5 ao 8 contra 8Vários blocos de duração média, pausas curtas
Recuperação entre açõesJogos pequenos a médios com muitas açõesAlta densidade de ações, interrupções curtas
Recuperação entre sériesJogos grandes, do 8 contra 8 ao 11 contra 11Blocos longos, ritmo de jogo, alternância de intensidade e calma

O tamanho do campo regula a intensidade. Campo pequeno com poucos jogadores: muitas ações, alta explosividade. Campo grande com muitos jogadores: percursos longos, resistência, ritmo. O treinador ajusta o jogo como um preparador ajusta a esteira — mas o jogador está jogando futebol enquanto isso.

O planejamento da semana

Verheijen planeja não só a semana, mas a temporada, em ciclos de várias semanas nos quais as dimensões se apoiam umas nas outras. Simplificando: primeiro recuperação entre séries, depois sustentar a explosividade, depois explosividade. Formas grandes antes das pequenas. Volume antes de intensidade.

Dentro da semana ele segue regras derivadas da fisiologia da recuperação:

Depois de um jogo, o corpo precisa de cerca de 48 horas para se recuperar por completo. O treino do dia seguinte é regenerativo ou não acontece. O trabalho intenso começa no segundo dia, no mínimo.

Antes de um jogo, o corpo precisa de cerca de 48 horas desde o último trabalho intenso. A véspera é curta e explosiva, sem fadiga.

Duas sessões intensas seguidas geram fadiga que se acumula. Verheijen fala em fadiga acumulada: um jogador que nunca chega totalmente recuperado à sessão seguinte fica mais lento ao longo de semanas sem perceber — até se lesionar.

Com um jogo por semana, isso produz uma estrutura parecida com o morfociclo da periodização tática, mas justificada fisiologicamente: domingo jogo, segunda folga ou regenerativo, terça folga ou leve, quarta e quinta intensos com dimensões diferentes, sexta curto e explosivo, sábado ativação.

Com dois jogos por semana, isso encolhe ao mínimo: recuperação, um dia de preparação, jogo. Verheijen já demonstrou várias vezes com números que clubes com jogos no meio de semana praticamente não conseguem treinar durante a temporada — e que toda tentativa de fazê-lo mesmo assim produz lesões.

A crítica à sobrecarga

A posição mais conhecida de Verheijen é sua crítica ao que ele chama de sobrecarga. Ela mira duas coisas.

Volume demais na pré-temporada. Verheijen já mostrou repetidamente com números que clubes que trabalham no verão com sessões duplas e muito volume de corrida têm mais lesões musculares no outono. Seu argumento: a base que Klopp e Gasperini assentam no verão não é uma base, é uma hipoteca. O corpo a paga quando a carga da temporada se soma.

Recuperação de menos durante a temporada. Treinadores que treinam mais depois de derrotas, que emendam dois dias intensos, que fazem trabalho físico no dia seguinte ao jogo — todos produzem, segundo Verheijen, fadiga acumulada. Sua fórmula: menos é mais. Um time fresco ganha mais jogos do que um time que treinou muito.

A crítica o levou a conflitos. Ele atribuiu publicamente ao treino as lesões do Bayern de Guardiola em 2013 e 2014, criticou por anos o Arsenal de Wenger e atacou Klopp com números de frequência de lesões. Os treinadores visados não responderam ou descartaram Verheijen como alguém de fora. Mas o debate que ele abriu chegou à ciência do esporte: o controle da carga em relação à semana anterior é hoje um padrão.

Verheijen e Frade: a comparação

Os dois rejeitam o trabalho físico isolado. Os dois treinam a forma em jogos. Os dois têm uma estrutura semanal com dias de dominantes diferentes. Ainda assim, as diferenças são de fundo.

FradeVerheijen
Ponto de partidaO modelo de jogoA ação de futebol
JustificativaSistêmica — o jogador não se decompõeFisiológica — a ação tem dimensões mensuráveis
Ordenação dos jogosPor princípios do modelo de jogoPor dimensões da forma
Pré-temporadaMesma semana, menos complexidadeCiclos, volume antes de intensidade, mas sem sobrecarga
RecuperaçãoRecuperação pela especificidadeRegras das 48 horas, fadiga acumulada
PrecisãoDeliberadamente vaga — o treinador preenche o modeloDeliberadamente precisa — o treinador segue regras
LinguagemAcademia portuguesa, complexaPragmatismo holandês, acessível

Para o treinador, a diferença é prática: Frade exige ter uma ideia de jogo e deduzir tudo dela. Verheijen exige entender que efeito cada jogo produz e montar a semana a partir disso. Quem sabe fazer as duas coisas desenha o jogo pelo modelo e escolhe seu tamanho pela dimensão física. É, na prática, o que fazem quase todos os grandes clubes.

As críticas a Verheijen

O tom. Com seus ataques públicos, Verheijen gerou mais atenção para si do que para o método. Muitos treinadores o rejeitam sem conhecê-lo. É problema dele, mas prejudicou a difusão.

A simplificação. Suas regras das 48 horas e suas dimensões são fáceis de guardar, mas a fisiologia é mais complexa. As diferenças individuais de recuperação são grandes e as regras não servem para todo jogador. Verheijen sabe disso e diz, mas a transmissão costuma parar nas regras.

A questão do sprint. Como em Frade, permanece a dúvida de se os jogos reproduzem suficientemente a velocidade máxima. Verheijen aposta em formas pequenas para a explosividade, mas se nelas se atinge a velocidade máxima de sprint é, como descrito em preparação física sem bola, objeto de discussão na pesquisa. Muitos clubes acrescentam sprints dirigidos, algo que o modelo de Verheijen não prevê.

As evidências de suas teses sobre sobrecarga. Suas acusações a treinadores específicos apoiam-se em números de lesões que podem ter outras causas. A relação entre pré-temporada e lesões de outono é plausível, mas não tão nítida quanto ele apresenta.

Sem modelo de jogo. Seu método não diz nada sobre como um time deve jogar. Ordena os jogos pela forma física, não pela tática. Um treinador que aplique apenas Verheijen terá um time em forma sem ideia de jogo. É a lacuna que Frade preenche.

Aplicação: o que você pode aproveitar

Esta seção é a nossa interpretação.

Para treinadores amadores e de base, Verheijen é o método de periodização mais acessível, porque trabalha com regras aplicáveis sem formação em ciência do esporte.

Pense em ações, não em quilômetros

Seu time não está em forma porque consegue correr 10 quilômetros. Está em forma quando o zagueiro ainda dá o passe certo aos 85 minutos. Depois de cada jogo, não pergunte se o time caiu, mas que ações pioraram: as decisões, os duelos, os sprints. Isso diz qual dimensão está faltando.

Use o tamanho do campo como regulador

Campo pequeno, poucos jogadores: explosividade. Campo grande, muitos jogadores: resistência e ritmo. É a ferramenta mais simples do planejamento e não custa nada. Se o time cai no fim dos jogos, você precisa de mais formas grandes. Se perde os duelos, de mais formas pequenas.

Duas sessões, duas dimensões

Como uma semana se monta em geral está em planejamento de treinos.

Com terça e quinta e jogo no sábado: terça grande e longo — recuperação entre séries, ritmo de jogo. Quinta pequeno e explosivo — curto, duro, com pausas longas, para o time chegar fresco no sábado. É a regra das 48 horas em escala amadora, e contraria o padrão difundido de voltar a trabalhar forte na quinta.

O dia seguinte ao jogo é livre

Se o time joga domingo, segunda não é dia de treino. Se você precisa treinar na segunda porque não há outro campo: leve, curto, com bola, sem duelos. Todo o resto é fadiga acumulada.

Depois de uma derrota, não treine mais

É a regra mais difícil. O reflexo depois de uma má atuação é punir com volume. Verheijen diz: isso produz a próxima má atuação. Um time que perdeu precisa de clareza e frescor, não de quilômetros.

Pré-temporada sem hipoteca

Quatro semanas de pré-temporada com duas sessões são oito sessões. A lógica de Verheijen para esse caso: primeiro formas grandes, depois médias, depois pequenas. Volume antes de intensidade. Sem corridas, sem sessões duplas, sem uma concentração em que o time treine em três dias o que normalmente treina em três semanas.

O essencial

  • Para Verheijen, condição futebolística é a capacidade de repetir ações de futebol com alta qualidade, muitas vezes — não valores de laboratório. Toda ação tem comunicação, decisão e execução, e a fadiga ataca as três.
  • Quatro dimensões — explosividade, sustentar a explosividade, recuperação entre ações e entre séries — correspondem a quatro tipos de jogo, regulados pelo tamanho do campo e pelo número de jogadores.
  • O planejamento semanal segue regras de recuperação: 48 horas depois do jogo, 48 horas antes do jogo, nunca dois dias intensos seguidos.
  • Sua crítica à sobrecarga — pré-temporada demais, recuperação de menos — marcou o debate sobre controle de carga, ainda que o tom o tenha prejudicado.
  • Diante de Frade: fisiológico em vez de sistêmico, preciso em vez de vago, sem modelo de jogo. Os dois se complementam.
  • Transferível: pensar em ações, o tamanho do campo como regulador, duas sessões com duas dimensões, o dia seguinte ao jogo livre, não treinar mais depois de derrotas, pré-temporada sem hipoteca.

Quem planeja a semana no Coach OS pode dar a cada sessão a sua dimensão — grande e longa na terça, pequena e explosiva na quinta. Se o time chega fresco no sábado, quem decide é o plano, não a ferramenta.

FAQ: perguntas frequentes

O que é a periodização do futebol de Verheijen?+
Um método de treino que trabalha a forma exclusivamente em jogos, mas os associa a dimensões fisiológicas — explosividade, sustentar a explosividade, recuperação entre ações e entre séries — e planeja a semana por regras de recuperação.
Qual é a diferença entre Verheijen e Frade?+
Frade parte do modelo de jogo e argumenta de forma sistêmica. Verheijen parte da ação de futebol e argumenta de forma fisiológica. Frade é deliberadamente vago, Verheijen deliberadamente preciso. Verheijen não tem modelo de jogo, Frade não tem dimensões da forma.
Por que Verheijen critica tantos treinadores?+
Porque vê na sobrecarga — volume demais na pré-temporada, recuperação de menos na temporada — a principal causa das lesões musculares, e apontou isso publicamente em treinadores como Guardiola, Wenger e Klopp.
A regra das 48 horas vale também para amadores?+
Sim, até mais. Amadores têm menos possibilidades de recuperação que profissionais. O dia seguinte ao jogo é livre; a véspera, curta e explosiva.
Ainda é preciso um modelo de jogo com Verheijen?+
Sim. Verheijen ordena os jogos pela forma física, não pela tática. O que se treina dentro do jogo o treinador precisa deduzir da sua ideia.

Fontes e leituras

  • Raymond Verheijen: Football Periodisation: Part 1 — a fundamentação do método.
  • Raymond Verheijen: How Simple Can It Be? — a exposição mais acessível, com exemplos práticos.
  • World Football Academy: materiais de curso e palestras sobre periodização do futebol.
  • Análises públicas de Verheijen sobre frequência de lesões e carga de treino, espalhadas por entrevistas e redes entre 2012 e 2020.
  • O artigo desta série sobre preparação física sem bola, que situa Verheijen entre Frade e a ciência do esporte.

Nota sobre as fontes: a descrição do método segue as publicações do próprio Verheijen. A associação de tamanhos de jogo às dimensões na tabela é uma simplificação; Verheijen diferencia com mais detalhe conforme medidas do campo, duração e pausas.

Planejar treinos ficou simples

O Coach OS monta seu próximo treino a partir de mais de 1.244 exercícios – conforme idade, tamanho do grupo e objetivo.

Teste 30 dias grátis
Escreva no WhatsApp