CoachOS
Base de conhecimento

Brighton e Brentford: Como dois profissionais das apostas reorganizaram o futebol com dados

O Brighton & Hove Albion jogava em 2011 no terceiro escalão inglês. O Brentford jogava lá em 2014. Dez anos depois, ambos estavam na Premier League, sem xeques, sem fundos soberanos, sem milhões televisivos do passado. O Brighton disputou em 2023 a Liga Europa. O Brentford estabeleceu-se desde 2021 sem lutar pela manutenção. Ambos os clubes pertencem a homens que fizeram fortuna com apostas desportivas. Tony Bloom no Brighton, Matthew Benham no Brentford. Ambos criaram empresas que superam os mercados de apostas com modelos estatísticos. E ambos transferiram essa mentalidade para os seus clubes.

📖 Tempo de leitura: 12 minutos ⚽ Base de conhecimento Coach OS

De onde vem o modelo

Matthew Benham assumiu o Brentford em 2012. Tinha estudado física na Universidade de Oxford, trabalhado para casas de apostas e, em 2004, fundado a Smartodds, uma empresa que modela estatisticamente jogos de futebol. Em 2014 adquiriu também o clube dinamarquês FC Midtjylland que, sob a sua liderança, foi campeão pela primeira vez em 2015 e se tornou um laboratório de testes para a gestão orientada por dados no futebol.

Tony Bloom é jogador profissional de póquer e fundador da Starlizard, uma empresa de consultoria de apostas que opera de forma semelhante à Smartodds. Assumiu o Brighton em 2009 e financiou o estádio e o centro de estágio. Ao contrário de Benham, Bloom mantém os seus modelos em absoluto segredo. O Brighton nunca fala publicamente sobre dados.

A origem é importante porque explica a forma de pensar de ambos. Um profissional das apostas sabe que os resultados a curto prazo são aleatórios. Um jogo termina 1-0, apesar de a equipa derrotada ter tido mais e melhores oportunidades. Ao longo de dez jogos, isso pode manter-se. Ao longo de quarenta, equilibra-se. Quem toma decisões com base em resultados, decide com base no ruído. Quem olha para o processo subjacente — qualidade das oportunidades, recuperações de bola, posicionamento —, decide com base no sinal.

Esta é a postura fundamental de ambos os clubes: Processo em vez de resultado.

Os cinco princípios

Comprar jogadores com base no modelo, não na reputação

Ambos os clubes avaliam jogadores com modelos próprios que tornam comparáveis os dados de rendimento entre ligas. Um jogador no campeonato equatoriano é avaliado como se estivesse a jogar na Premier League — com ajustes para a competitividade da liga, idade, posição e estilo de jogo.

Os resultados falam por si. O Brighton contratou Moisés Caicedo em 2021 por cerca de cinco milhões de euros ao Independiente del Valle e vendeu-o em 2023 por cerca de 130 milhões ao Chelsea. Alexis Mac Allister chegou por menos de dez milhões do Argentinos Juniors e rumou ao Liverpool como campeão do mundo por cerca de 40 milhões. Marc Cucurella, Yves Bissouma, Leandro Trossard, Kaoru Mitoma, João Pedro — todos comprados antes de o mercado os reconhecer, todos vendidos com lucro ou mantidos no plantel.

O Brentford contratou Ollie Watkins por menos de dois milhões ao Exeter e vendeu-o por cerca de 30 milhões ao Aston Villa. Ivan Toney veio do terceiro escalão, do Peterborough, e tornou-se internacional. Bryan Mbeumo veio da segunda divisão francesa, do Troyes, e rumou em 2025 ao Manchester United por mais de 70 milhões.

O padrão é sempre o mesmo: jogadores de mercados ignorados pelos grandes clubes — América do Sul, Bélgica, Japão, divisões inferiores inglesas, Ligue 2 —, que parecem melhores no modelo do que na perceção pública.

Vender quando o preço é certo

Em ambos os clubes não há intocáveis. Se um grande clube pagar um valor muito superior ao valor estipulado pelo modelo, vende-se — mesmo que isso doa desportivamente. A receita é investida em dois a três novos jogadores que o modelo considera subavaliados.

É por esta razão que o Brighton não colapsou após a venda de Caicedo e Mac Allister. O substituto já tinha sido contratado antes de as saídas estarem confirmadas.

O treinador como função, não como salvador

Desde 2019, o Brighton teve três treinadores principais — Graham Potter, Roberto De Zerbi e Fabian Hürzeler — que nunca tinham trabalhado na Premier League. Hürzeler chegou em 2024, aos 31 anos, vindo do FC St. Pauli, tornando-se o treinador mais jovem da história da liga. Todos os três foram escolhidos pelo perfil: ideia de jogo, desenvolvimento de jovens jogadores e compatibilidade com o planeamento do plantel do clube.

O Brentford teve em Thomas Frank, de 2018 a 2025, um treinador promovido internamente e que aceitou a estrutura: o clube planeia o plantel, o treinador treina-o. Quando Frank rumou ao Tottenham em 2025, o seu adjunto Keith Andrews assumiu o cargo.

Ambos os clubes demonstraram que uma estrutura estável sobrevive à troca de treinador. O treinador é importante, mas substituível. O planeamento do plantel não é substituível.

Procurar pequenas vantagens de forma sistemática

O exemplo mais conhecido: bolas paradas. O Brentford e o Midtjylland perceberam cedo que cerca de um terço de todos os golos resulta de lances de bola parada e que quase nenhum clube os treina de forma sistemática. O Midtjylland foi um dos primeiros clubes a contratar um treinador específico para bolas paradas. O Brentford trabalhou temporariamente com Gianni Vio, um especialista italiano em esquemas táticos, e marcou durante anos um número de golos acima da média a partir de cantos, livres e lançamentos de linha lateral.

A lógica: onde todos investem o mesmo, não há vantagem. Onde ninguém investe, a vantagem custa pouco.

KPIs de processo em vez da posição na tabela

Nenhum dos clubes avalia o treinador e a equipa prioritariamente pelos pontos. Sob a liderança de Benham, o Brentford assumiu abertamente que mantém uma «tabela da justiça» — uma classificação baseada na qualidade das oportunidades que mostra onde a equipa estaria se o acaso não tivesse peso. Um treinador com maus resultados mas bons valores de processo não é despedido. Um treinador bem classificado mas com maus valores de processo não é automaticamente festejado.

Brentford: Acabar com a academia

Em 2016, o Brentford fez algo que nenhum outro clube profissional inglês tinha tido a coragem de fazer: fechou a sua academia de formação.

A justificação foi pragmática. O Brentford estava situado em Londres entre o Chelsea, Arsenal, Tottenham, Fulham, West Ham e QPR. A probabilidade de um jovem talento de doze anos escolher precisamente o Brentford era reduzida. Os custos da academia eram elevados e o retorno — medido em jogadores que chegavam à equipa principal — era quase nulo.

Em vez disso, o Brentford criou uma equipa B para jogadores entre os 17 e os 21 anos. O recrutamento: jogadores dispensados por outras academias, frequentemente aos 16 ou 18 anos, muitas vezes dos grandes clubes de Londres. A estes juntaram-se jogadores estrangeiros subavaliados nas respetivas ligas. A equipa B não disputava um campeonato, mas sim jogos particulares contra equipas seniores, equipas de sub-23 e clubes estrangeiros — tantos e tão exigentes quanto possível.

A ideia subjacente vem diretamente do negócio das apostas: a seleção nas academias inglesas é imprecisa. Um jovem de 16 anos é dispensado porque teve um mês mau no momento errado, porque tem uma maturação tardia ou porque outro jogador na sua posição estava temporariamente melhor. O mercado de jogadores dispensados é barato porque todos acreditam que a academia tomou a decisão correta. O Brentford não acreditava nisso.

A equipa B formou jogadores como Chris Mepham (hoje no Bournemouth) e serviu de rampa de lançamento para muitos outros. O impacto mais relevante foi estrutural: o clube passou a ter uma via para jovens jogadores sem suportar os custos de uma academia.

O Brighton seguiu o caminho oposto e desenvolveu uma academia de Categoria 1 em Lancing, da qual saíram Ben White, Evan Ferguson, Jack Hinshelwood e o capitão Lewis Dunk. Ambos os modelos funcionam. A diferença reside na avaliação honesta da própria realidade.

Brighton: De Zerbi e o treino de construção

Para os treinadores, a passagem de Roberto De Zerbi pelo Brighton, de 2022 a 2024, foi o capítulo mais fascinante. De Zerbi fez o Brighton construir jogo de uma forma que ainda não tinha sido vista na Premier League.

O princípio: os defesas-centrais retinham a bola no pé, frequentemente durante vários segundos, à espera de que o adversário avançasse na pressão. Só então se jogava — para o espaço que o adversário em pressão tinha aberto. A bola era usada deliberadamente como isco. Os observadores chamavam a isto «convidar o adversário».

O que torna isto interessante a nível metodológico: De Zerbi treinava estes padrões com um número elevado de repetições e em formatos claramente estruturados. As situações de construção eram recriadas, o adversário executava padrões de pressão predeterminados e a própria equipa exercitava a resposta. Era um processo menos livre do que o jogo de posição de Guardiola e mais próximo de um guião. De Zerbi afirmou em entrevistas que os seus jogadores repetem os padrões de construção tantas vezes até que estes funcionem em piloto automático.

Guardiola descreveu De Zerbi como um dos treinadores mais influentes dos últimos anos. É uma declaração de peso sobre um treinador que nunca foi além do sexto lugar no Brighton — e que revela como o clube trabalha: contratou um treinador cujas ideias não se enquadravam no padrão inglês porque o perfil era o adequado.

A crítica

Os modelos não são públicos. Tudo o que se diz sobre o trabalho de dados de ambos os clubes assenta em deduções. O Brighton nunca fala sobre o assunto. Benham falava antigamente, mas tornou-se mais reservado. Ninguém fora dos clubes sabe exatamente o que é medido e de que forma. Isto torna o modelo difícil de avaliar — e difícil de copiar.

O sucesso também depende da sorte. Ambos os clubes sabem-no melhor do que ninguém. Caicedo por cinco milhões não é prova de um modelo. É prova de um excelente achado. Apenas o somatório ao longo de dez anos e de muitas transferências constitui uma prova — e esse balanço fala a favor de ambos.

O teto é real. O Brighton nunca será campeão. O Brentford nunca disputará a Liga dos Campeões. O modelo eleva um clube do terceiro escalão à metade superior da Premier League. Não o leva ao topo, porque os clubes do topo aplicam há muito os mesmos métodos com dez vezes mais orçamento.

O plantel nunca fica fechado. Quem vende quando o preço é certo tem uma nova equipa todos os anos. Para os adeptos, isso é desgastante. Para a ideia de jogo também: um sistema que exige rotinas consolidadas não tolera uma reformulação anual profunda.

O Brentford sem Frank. Resta saber se a estrutura conseguirá realmente absorver a saída de Thomas Frank em 2025. A tese de que o treinador é substituível está atualmente a ser colocada à prova.

A aplicabilidade ao futebol amador é limitada. Não existem dados. Não existe mercado de transferências. O que é transferível é a mentalidade, não as ferramentas.

Aplicação: O que podes aproveitar

Esta secção é a nossa interpretação.

Para os treinadores, o Brighton e o Brentford não são uma coletânea de exercícios. São uma escola de tomada de decisão.

Avalia o processo, não o resultado

Um treinador de formação que avalia se o seu treino funciona com base nos resultados dos jogos está a avaliar ruído. Em vez disso, regista aquilo que realmente treinas: quantas oportunidades de golo criámos após recuperar a bola no meio-campo? Quantas vezes recuperámos a bola em cinco segundos após a perda? Esta é a tua tabela da justiça. Um 0-2 com bons valores é um jogo melhor do que um 2-1 com maus valores.

Encontra as vantagens baratas

O Brentford treinou bolas paradas porque ninguém o fazia. Pergunta a ti próprio: o que é que ninguém treina no teu campeonato? Lançamentos de linha lateral. Pontapés de saída. O comportamento após sofrer um golo. O pontapé de baliza do guarda-redes. Dez minutos por semana dedicados a algo que ninguém treina trazem mais proveito do que outros dez minutos de exercícios de passe.

O jogador dispensado está subavaliado

A lógica da equipa B do Brentford aplica-se a qualquer prospeção: um jogador dispensado por um clube maior muitas vezes não piorou. Teve um mês mau, tem uma maturação tardia ou esteve tapado por outro colega. Se ele vier ter contigo, observa-o com os teus próprios olhos em vez de assumires o veredito do outro clube.

Separa as funções

O Brighton e o Brentford funcionam porque o clube planeia o plantel e o treinador treina. No clube amador, isto significa: o coordenador da formação decide a linha orientadora, o treinador implementa-a. Um treinador que traz a sua própria ideia de jogo a cada época e recruta os seus próprios jogadores torna o clube dependente de si.

A repetição é permitida

O treino de construção de De Zerbi contraria o dogma de que tudo tem de ser aberto e próximo do jogo real. Certos padrões — a construção sob pressão, a recuperação de bola após o pontapé de saída, o equilíbrio defensivo — podem ser treinados como um guião, até saírem de forma automática. Só então se tornam executáveis sob pressão.

Aceita o acaso

Esta é a lição mais difícil. Um bom treino não consegue evitar uma derrota. Um mau treino não impede uma vitória. Quem compreende isto não muda logo tudo após uma derrota — nem deixa tudo igual após uma vitória.

O que deves fixar

  • O Brighton e o Brentford pertencem a profissionais das apostas que gerem os seus clubes como colocam apostas: com base no sinal, não no ruído. Processo em vez de resultado.
  • Os jogadores são contratados com base no modelo em mercados que ninguém observa e vendidos quando o preço supera a avaliação do modelo.
  • Os treinadores são escolhidos pelo perfil e são substituíveis. O planeamento do plantel não o é.
  • Procuram-se sistematicamente pequenas vantagens — as bolas paradas são o exemplo mais evidente.
  • O Brentford encerrou a sua academia e criou uma equipa B com jogadores dispensados. O Brighton expandiu a sua academia. Ambos os modelos funcionam porque ambos foram honestos quanto à sua própria realidade.
  • Os modelos não são públicos, o sucesso tem um teto e, para o futebol amador, o que se aproveita é a mentalidade, não as ferramentas.

Quem regista os seus treinos ao longo de uma época obtém ao fim de um ano o que o Brighton e o Brentford extraem dos dados: uma visão sobre o processo, independente do resultado no fim de semana. O Coach OS regista as sessões. As perguntas que lhes fazes são tuas.

Perguntas frequentes

O que significa «Moneyball» no futebol?+
O conceito tem origem no basebol e descreve o planeamento de plantéis com base em modelos estatísticos em vez de reputação ou intuição. O Brentford e o Brighton são considerados os exemplos mais conhecidos no futebol europeu.
Porque é que o Brentford fechou a sua academia?+
Porque o clube competia em Londres com seis clubes maiores pelos mesmos jovens, os custos eram elevados e o retorno era reduzido. Em vez disso, o Brentford criou uma equipa B para jogadores entre os 17 e os 21 anos que tinham sido dispensados por outras academias.
O que é a «tabela da justiça»?+
Uma classificação baseada na qualidade das oportunidades em vez dos pontos conquistados. Mostra onde a equipa estaria se o acaso não tivesse peso e serve de base no Brentford para tomar decisões sobre a equipa técnica e o plantel.
O que tinha de especial o Brighton de De Zerbi?+
A fase de construção: os defesas-centrais retinham a bola até o adversário pressionar e jogavam de seguida para o espaço aberto. Os padrões eram treinados com repetição intensiva até funcionarem automaticamente.
Pode um clube amador trabalhar com dados?+
Não com modelos como os do Brighton ou do Brentford. Mas sim com a mentalidade: contabilizar o processo em vez do resultado, procurar vantagens baratas, avaliar pessoalmente os dispensados e separar as funções.

Fontes e literatura complementar

  • Christoph Biermann: Matchplan: Die neue Fußballmatrix — sobre o Midtjylland, o Brentford e a revolução dos dados, com entrevistas a Benham e Rasmus Ankersen.
  • Rasmus Ankersen: palestras e entrevistas sobre o trabalho no Midtjylland e no Brentford entre 2014 e 2021.
  • Entrevistas com Paul Barber, Dan Ashworth e David Weir sobre a estrutura do Brighton.
  • Michael Lewis: Moneyball — a origem da mentalidade, a partir do basebol.
  • Entrevistas com Roberto De Zerbi sobre a metodologia de treino entre 2022 e 2024, entre outros na imprensa desportiva italiana e inglesa.

Nota sobre os factos: os modelos de dados de ambos os clubes não são públicos. Os valores das transferências são montantes base segundo notícias da imprensa e variam consoante a fonte. As afirmações sobre o trabalho com dados assentam em deduções a partir de entrevistas e observação.

Planeamento de treinos simplificado

O Coach OS cria a tua próxima sessão a partir de mais de 1.244 exercicios – adequada à idade, dimensão do grupo e objetivo do treino.

Experimenta 30 dias gratis
Escreve no WhatsApp