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Bayern e Dortmund: como funciona o sistema alemão de formação

A Alemanha foi campeã do mundo em 2014 com um time visto como produto da reforma da base: Lahm, Schweinsteiger, Müller, Neuer, Kroos, Götze, Özil, Khedira — todos formados em centros de rendimento que antes de 2001 não existiam. O sistema era tido como modelo. Delegações da Inglaterra, da Espanha e dos Estados Unidos vinham estudá-lo. Dez anos depois o clima é outro. Duas eliminações na fase de grupos em Copas, debates sobre a falta de futebolistas de rua, de atacantes, de individualidades. Em 2024 a federação reformou o futebol infantil e repensa os centros de formação. O Bayern construiu um campus por cerca de 70 milhões de euros e se debate com o retorno. O Borussia Dortmund transformou a formação num modelo de transferências que funciona — mas sobretudo com jogadores que chegam aos 17 anos do exterior.

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De onde vem o sistema

A Eurocopa de 2000 foi um ponto baixo. A Alemanha caiu na fase de grupos com um ponto, com um time envelhecido e sem reposição visível. A resposta foi estrutural.

A partir de 2001, a federação DFB e a liga DFL obrigaram todos os clubes da primeira e da segunda divisão a manter um centro de rendimento de base (Nachwuchsleistungszentrum, NLZ). As exigências eram concretas: treinadores em tempo integral, convênios com escolas, acompanhamento médico-esportivo, infraestrutura. O modelo se inspirou em parte no sistema francês dos Centres de Formation. A partir de 2007 os centros passaram a ser certificados e avaliados por estrelas.

A isso somou-se o programa de detecção da DFB, com cerca de 360 polos por todo o país, onde crianças a partir dos onze anos recebiam treino além do clube. A ideia: que nenhum talento passe despercebido, nem mesmo numa aldeia.

O sistema funcionou. Os campeões do mundo de 2014 foram seu produto. O número de profissionais alemães na Bundesliga cresceu, e a qualidade também. E ele criou um problema que só se tornou visível mais tarde.

As críticas ao sistema

O debate que corre desde cerca de 2018 tem um núcleo: o sistema produziu jogadores que fazem tudo bem e nada de forma notável.

As acusações em detalhe:

Cedo demais, estrutura demais. As crianças entravam aos oito ou nove anos em centros de rendimento, treinavam quatro ou cinco vezes por semana sob instrução e jogavam em sistemas fixos com funções claras. Faltava o futebol de rua que na França, na Holanda e na América do Sul assenta a base técnica. Os jogadores aprendiam o que o treinador queria — não o que eles mesmos teriam experimentado.

Tática demais, técnica de menos. Os treinadores de base alemães ensinavam cedo jogo de posição, pressão e transição. Essa é a força do sistema e a sua fraqueza: um menino de doze anos que aprende quando bascular passa menos tempo com a bola do que outro que joga 3 contra 3 no pátio.

Pouco um contra um. Os artigos comparativos desta série mostram que Sporting, Ajax, Athletic e Lyon colocam o drible no centro. Os centros alemães não fizeram isso durante muito tempo. O resultado: uma geração sem pontas que desequilibrem e sem atacantes com instinto na área.

Seleção precoce demais. Quem aos doze anos não está num centro raramente entra depois. Os de maturação tardia — física, mental — se perdem. O efeito da idade relativa, a preferência por crianças nascidas no início do ano, está bem documentado nos centros alemães.

Falta a transição. As equipes B dos clubes profissionais alemães jogam a Regionalliga, e muitas foram extintas. Ao contrário de Portugal, da Holanda ou da Espanha, não existe futebol de adultos em nível de segunda divisão para jogadores de 19 anos. O salto do sub-19 para a Bundesliga é por isso maior do que em outros lugares.

A DFB reagiu às críticas. A reforma do futebol infantil, obrigatória desde a temporada 2024/25, introduz formatos reduzidos para as categorias mais novas — 2 contra 2 e 3 contra 3 em vários campos, sem tabelas, sem posições fixas, com equipes rotativas. É a lógica holandesa e espanhola, vinte anos depois. Se ela melhora o retorno se verá em 2035, no mínimo.

Bayern de Munique: o Campus

O Bayern viveu historicamente pouco da sua base. As exceções são ilustres — Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger, Thomas Müller, David Alaba, Holger Badstuber — mas seguiram sendo exceções em times comprados sobretudo no mercado. Toni Kroos chegou aos 16 anos de Rostock, Jamal Musiala aos 16 da base do Chelsea.

Em 2017 o clube inaugurou o FC Bayern Campus no norte de Munique, por cerca de 70 milhões de euros, com oito campos, alojamento e instalações para todas as categorias. O objetivo declarado: mais jogadores da casa no time principal.

O que saiu desde então: Aleksandar Pavlović e Josip Stanišić se firmaram no time principal. Musiala conta pela metade. O resto dos formados no Campus joga na segunda divisão, na Regionalliga ou no exterior.

A crítica ao Campus é mais forte em Munique do que fora. Uli Hoeneß disse publicamente várias vezes que o retorno não corresponde ao investimento. A direção trocou o comando do Campus várias vezes, a última com uma reestruturação a partir de 2024.

A análise não é difícil: uma academia só pode ser tão boa quanto o seu acesso ao time principal. O Bayern compra os melhores jogadores do mundo. Um jogador de 19 anos do Campus disputa minutos com Kane, Musiala e Olise. No Benfica ele disputaria com jogadores comprados por dez milhões. Não é uma censura ao Campus, é a consequência do modelo Bayern. O Manchester City tem o mesmo problema.

A isso soma-se a transição ausente: a equipe B do Bayern caiu em 2021 da terceira divisão para a Regionalliga. Desde então os formados no Campus jogam aos 19 anos a Regionalliga em vez de futebol de adultos em nível profissional.

Borussia Dortmund: o modelo de desenvolvimento

O Dortmund fez da necessidade virtude. O clube esteve perto da insolvência em 2005, não podia comprar e tinha de formar. Nuri Şahin estreou em 2005 aos 16 anos como o mais jovem jogador da história da Bundesliga. Marcel Schmelzer, Kevin Großkreutz, Mario Götze e Marco Reus — que saiu da base e voltou via Ahlen e Gladbach — formaram o núcleo dos times campeões sob Klopp.

O que o Dortmund faz de diferente de todos os outros clubes alemães desde cerca de 2015: o modelo é pensado para jogadores de 17 anos vindos do exterior.

Christian Pulisic chegou aos 16 dos Estados Unidos. Jadon Sancho aos 17 do Manchester City. Jude Bellingham aos 17 do Birmingham City, por cerca de 25 milhões, vendido em 2023 por mais de 100 ao Real Madrid. Giovanni Reyna de Nova York, Jamie Bynoe-Gittens do City, Erling Haaland aos 19 de Salzburgo. Além de Youssoufa Moukoko, que chegou aos onze anos da base do St. Pauli e aos 16 foi o mais jovem jogador da Bundesliga.

A lógica: o Dortmund não pode oferecer a um jogador de 17 anos o salário do City ou do Chelsea. Mas pode garantir a ele o que esses clubes não podem — minutos na Bundesliga e na Liga dos Campeões aos 18 ou 19 anos. Esse é o argumento de venda. O jogador se desenvolve, valoriza e sai aos 21 ou 22 por quatro vezes mais.

Lars Ricken, ele próprio formado no clube e campeão da Liga dos Campeões em 1997, dirigiu o centro de formação de 2008 a 2024 e desde então é diretor esportivo. O centro em Brackel é considerado um dos mais modernos da Alemanha. O Footbonaut, uma máquina de treino que envia bolas de várias direções e acende zonas-alvo, foi usado em Dortmund em 2012 pela primeira vez no futebol profissional e virou o símbolo do treino técnico apoiado em dados. Seu efeito real é contestado — treinadores do clube o descreveram como complemento, não como núcleo.

Desde 2021 o Dortmund voltou a ter equipe B na terceira divisão. É um passo deliberado contra a transição ausente e uma das razões pelas quais o Dortmund produz mais jogadores da casa que o Bayern.

O limite do modelo: é um modelo de transferências, não um modelo de formação em sentido estrito. Os talentos mais espetaculares do Dortmund dos últimos dez anos foram formados em outro lugar e lapidados em Dortmund. É legítimo e economicamente bem-sucedido — mas é outra coisa que o que fazem o Benfica ou o Ajax.

A comparação com a Europa

O que esta série de artigos mostrou sobre doze clubes pode ser aplicado à Alemanha:

Portugal, Holanda e Espanha têm equipes B na segunda divisão. A Alemanha não. É a maior desvantagem estrutural do sistema alemão e a menos discutida.

A França regula a formação por padrões. A Alemanha faz algo parecido com a certificação dos centros. A diferença está na préformation: a França protege a formação técnica dos 13 aos 15 anos da pressão por resultado. A Alemanha não.

Sporting, Ajax e Athletic colocam o um contra um no centro. Os centros alemães não fizeram isso durante muito tempo e agora recuperam.

O Barça e o Ajax têm uma ideia de jogo em todas as categorias. Muitos centros alemães têm filosofias no papel. Se elas são vividas no sub-12 depende do treinador.

O Athletic e o Lyon vivem do enraizamento regional. Os centros alemães captam cedo e longe. O menino da aldeia vizinha é levado aos nove anos e passa a vida no carro. É eficiente e tem seu preço em vínculo, família e prazer de jogar.

A Red Bull padroniza a ideia de jogo entre sedes. Leipzig é o único clube alemão que faz isso com constância — e é criticado como produto artificial por causa disso.

Aplicação: o que você pode aproveitar

Esta seção é a nossa interpretação.

Para um treinador alemão, a pergunta não é o que fazem o Bayern ou o Dortmund. É o que o sistema deixou passar e o que um treinador sozinho pode corrigir disso.

Mais bola, menos instrução

A crítica ao sistema alemão é, no fundo, uma crítica ao excesso de correção. Reduza suas intervenções. Deixe um jogo rodar dez minutos sem intervir. Conte quantas vezes você fala. Divida por dois.

Recupere o um contra um

Se o seu clube apostou nos últimos anos em jogo de posição e transição, provavelmente falta o drible. Dez minutos por sessão, em todas as categorias, com gol e adversário. Não puna os erros no drible. A lição do Sporting é a de que a Alemanha mais precisa.

Segure conscientemente os de maturação tardia

Verifique os meses de nascimento do seu elenco. Se três quartos nasceram no primeiro semestre, seu clube tem um erro de seleção. Segure mais tempo os do último trimestre, dê minutos a eles mesmo que estejam atrás fisicamente. Aos 17 costumam ser os melhores futebolistas.

A reforma do futebol infantil não se aplica apenas, se entende

Os formatos reduzidos não são simplificação, são o contrário: dão às crianças mais decisões, mais toques e mais responsabilidade. Quem segue corrigindo posições da linha lateral anula a reforma. O papel certo no futebol infantil é organizar e calar.

Construa você mesmo a passagem aos adultos

O sistema não tem transição. Seu clube pode ter uma: juniores que treinam com os adultos a partir do returno. Uma equipe B entendida como equipe de formação. Uma pessoa de referência para a passagem. É a lição do Benfica em escala amadora.

Escreva a ideia de jogo — e verifique se ela é vivida no sub-12

Uma filosofia de jogo na pasta do clube não vale nada. Uma que o treinador do sub-12 conhece, treina e cobra no jogo é o núcleo de tudo o que são o Barça e o Ajax. O teste: pergunte a um jogador do sub-12 como o clube dele quer jogar. Se ele não souber dizer, não há ideia de jogo.

O essencial

  • O sistema alemão de formação nasceu em 2001 após o ponto baixo da Euro 2000, produziu os campeões do mundo de 2014 e é criticado desde cerca de 2018: cedo demais, estrutura demais, técnica e um contra um de menos, seleção precoce, sem passagem aos adultos.
  • O Campus do Bayern entrega pouco porque um jogador da casa disputa com contratações de classe mundial. É consequência do modelo Bayern, não fracasso da academia.
  • O Dortmund construiu um modelo de transferências para jogadores de 17 anos vindos do exterior — economicamente bem-sucedido, mas outra coisa que a formação no sentido do Benfica ou do Ajax.
  • A maior desvantagem estrutural da Alemanha é a falta de futebol de adultos para jogadores de 19 anos. Portugal, Espanha e Holanda têm equipes B na segunda divisão.
  • A reforma do futebol infantil de 2024/25 adota a lógica holandesa e espanhola. Seu efeito se verá em dez anos, no mínimo.
  • Transferível: menos correção, mais um contra um, segurar os de maturação tardia, construir a transição, viver a ideia de jogo até o sub-12.

O Coach OS nasceu na Alemanha, para treinadores que trabalham dentro deste sistema. Se uma ideia de jogo chega ao sub-12, quem responde é a visão de todos os times no painel do clube. A ideia de jogo em si vem do clube.

FAQ: perguntas frequentes

O que é um Nachwuchsleistungszentrum?+
Um centro de formação certificado que todos os clubes da primeira e da segunda Bundesliga precisam manter desde 2001. A certificação avalia treinadores, infraestrutura, escolaridade e acompanhamento.
Por que o sistema alemão é criticado?+
Porque, depois do título mundial de 2014, produziu jogadores considerados uniformes demais: bem formados taticamente, mas sem individualidades marcantes. A crítica aponta a estruturação precoce, a pouca técnica e o pouco um contra um, a seleção antecipada e a ausência de passagem aos adultos.
O que é a reforma do futebol infantil?+
A mudança das categorias mais novas para formatos reduzidos, obrigatória desde 2024/25: 2 contra 2 e 3 contra 3 em vários campos, sem tabelas nem posições fixas. Segue a lógica holandesa e espanhola.
Por que o Campus do Bayern produz tão poucos titulares?+
Porque os jogadores da casa disputam minutos com os melhores do mundo e a equipe B joga na Regionalliga desde 2021. É um problema estrutural do modelo Bayern, não um problema de formação.
O que é o Footbonaut?+
Uma máquina de treino que envia bolas de várias direções e indica zonas-alvo. O Dortmund a usou em 2012 como primeiro clube profissional. Seu efeito é considerado complemento, não núcleo da formação.

Fontes e leituras

  • DFB e DFL: publicações sobre a certificação dos centros, o programa de detecção e a reforma do futebol infantil.
  • Raphael Honigstein: Das Reboot — sobre o surgimento do sistema de centros e o caminho até o título de 2014.
  • Christoph Biermann: Matchplan — sobre o Dortmund, o Footbonaut e o treino apoiado em dados.
  • Entrevistas com Lars Ricken sobre a estratégia de base do Dortmund, 2008-2024.
  • Estudos sobre o efeito da idade relativa no futebol de base alemão, entre outros da Universidade Alemã do Esporte de Colônia.
  • Contribuições públicas ao debate sobre detecção, entre outras de Hannes Wolf, Uli Hoeneß e ex-diretores esportivos da DFB.

Nota sobre as fontes: o custo do FC Bayern Campus é um número de imprensa. A descrição das críticas resume um debate em curso e está ponderada em conformidade, sem ser conclusiva. Os valores de transferência são quantias base segundo a imprensa.

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