CoachOS
Base de Conhecimento

PSV e Feyenoord: a formação holandesa além do Ajax

Quem fala sobre o trabalho de categorias de base na Holanda quase sempre pensa no Ajax. Isso é injusto. Os Países Baixos têm cerca de 18 milhões de habitantes e há décadas produzem profissionais para toda a Europa – de Amsterdã, mas igualmente de Eindhoven, Roterdã, Alkmaar, Utrecht e Heerenveen. Van Persie, van Bronckhorst, de Vrij e Wijnaldum vieram do Feyenoord. Afellay, Depay, Gakpo e Bakayoko, do PSV. A razão não é que todo clube holandês tenha uma academia genial. O motivo é um sistema nacional, definido desde a década de 1980 pela federação KNVB em Zeist e utilizado por todos os clubes como alicerce comum. O Ajax é a implementação mais famosa desse sistema. PSV e Feyenoord são outras duas – com identidade própria.

📖 Tempo de leitura: 11 minutos ⚽ Base de Conhecimento Coach OS

O fundamento: a Zeister Visie

A KNVB está sediada em Zeist. Foi lá que, nos anos 1980, sob a liderança da federação, formulou-se uma filosofia de formação conhecida como Zeister Visie. Ela remonta a Rinus Michels, que foi o treinador da seleção entre 1984 e 1988 e marcou a formação de treinadores da federação durante esse período.

A Zeister Visie define o que um jogador holandês deve aprender e como:

Futebol se aprende jogando futebol. A frase central da formação holandesa. Nenhum treino sem bola, nenhuma preparação física sem contexto de jogo, nenhum trabalho técnico sem adversários. O jogo é a ferramenta de ensino, seja em formato simplificado ou reduzido.

O 4-3-3 como sistema pedagógico. Não por ser o melhor esquema tático, mas porque distribui todas as posições com funções claras e ensina o jogo por pontas, centro e profundidade. Todas as equipes de base holandesas – não apenas no Ajax – aprendem dentro desse sistema.

O modelo TIC. Enquanto o Ajax utiliza o TIPS, a federação trabalha com o TIC: Techniek, Inzicht, Communicatie – técnica, visão de jogo (entendimento tático) e comunicação. Comunicação aqui não significa apenas falar, mas sim a dinâmica coletiva: como o jogador lê seus companheiros, como sincroniza movimentos e como reage ao que acontece ao seu redor. As três dimensões são inseparáveis no treino. Cada exercício precisa contemplar as três.

Os quatro momentos principais do jogo. Posse de bola, posse de bola do adversário, transição ofensiva (após recuperação) e transição defensiva (após perda) – a mesma divisão encontrada na Periodização Tática e nos princípios de jogo. Cada exercício é associado a um momento principal.

Formatos adequados à idade. A KNVB implementou em 2017 uma reforma nas categorias de base que a Alemanha só adotou em 2024: crianças jogam em campos reduzidos. Até o sub-10 joga-se 6 contra 6 em campo menor, sub-11 e sub-12 em 8 contra 8, e a partir do sub-13 em 11 contra 11. O argumento é o mesmo em todo o mundo: mais toques na bola, mais tomadas de decisão e mais finalizações por criança.

Formação de treinadores com a mesma linguagem. Todo treinador holandês que tira sua licença aprende a Zeister Visie. Um treinador da base em Eindhoven e outro em Roterdã compartilham o mesmo vocabulário, os mesmos métodos de treino e a mesma compreensão de sistema. Esse é o real segredo da consistência na formação de atletas da Holanda.

PSV Eindhoven: De Herdgang

O PSV é o clube de fábrica da Philips, fundado em 1913. O vínculo com a corporação manteve o clube financeiramente sólido por décadas e permitiu uma infraestrutura sem igual na Holanda. O centro de treinamento De Herdgang, nos arredores da zona norte da cidade, funciona desde 1965 e passou por várias modernizações.

Revelações: Ibrahim Afellay, Memphis Depay, Jeroen Zoet, Jetro Willems, Cody Gakpo, Mohamed Ihattaren, Johan Bakayoko, Isaac Babadi. Além de atletas que chegaram jovens de outros clubes e deram o salto final no PSV – como Noni Madueke, que veio da Inglaterra aos 16 anos.

O que o PSV faz de diferente:

Velocidade e intensidade física. Os jogadores formados no PSV se destacam pelo atleticismo se comparados aos do Ajax. Depay, Gakpo e Bakayoko são pontas velozes e fortes no enfrentamento individual. Não é por acaso. O PSV historicamente valorizou mais a dimensão física, aproveitando a tecnologia e a estrutura da Philips: fisiologia esportiva de ponta, ciência do esporte e preparação física individualizada paralelamente ao treino coletivo.

Jong PSV na segunda divisão. Desde 2013, a equipe B disputa a Eerste Divisie, competindo por pontos contra equipes profissionais. Essa é a mesma vantagem competitiva do Benfica B e do Jong Ajax. Um jovem de 18 anos enfrenta o futebol profissional masculino antes mesmo de estrear no time principal.

Captação internacional direcionada. O PSV recruta cirurgicamente jovens na Bélgica e na Inglaterra que já estão em grandes academias, mas buscam novos caminhos. Bakayoko veio da base do Anderlecht aos 16 anos; Madueke, do Tottenham. A proximidade com a Bélgica – Eindhoven fica a apenas 30 quilômetros da fronteira – é uma vantagem geográfica explorada de forma sistemática.

Foco em resultados. O PSV é menos dogmático que o Ajax. As equipes de base jogam para vencer títulos, e isso é assumido abertamente. O clube enxerga a mentalidade vencedora como parte da formação, assim como o Benfica.

Em termos esportivos, o PSV é o clube dominante do futebol holandês desde 2024. Sob o comando de Peter Bosz, a equipe sagrou-se campeã em 2024 e 2025 – em 2024 sofrendo apenas uma derrota no campeonato. O elenco mesclou crias da base com contratações pontuais; um modelo que no momento vem funcionando melhor do que o do Ajax.

Feyenoord Rotterdam: Varkenoord

O Feyenoord é o clube da cidade operária e portuária de Roterdã, carregando o lema „Geen woorden maar daden" – menos palavras, mais ação. Isso molda a formação de atletas muito mais do que parece à primeira vista.

A academia fica em Varkenoord, ao lado do estádio De Kuip. Ela foi amplamente reformulada na década de 2010 e desde então é considerada um dos melhores centros de formação dos Países Baixos.

Revelações: Robin van Persie, Giovanni van Bronckhorst, Georginio Wijnaldum, Stefan de Vrij, Bruno Martins Indi, Jordy Clasie, Leroy Fer, Tonny Vilhena, Rick Karsdorp, Lutsharel Geertruida, Orkun Kökçü, Antoni Milambo, Givairo Read. Entre 2010 e 2020, o Feyenoord foi considerado a academia mais prolífica da Holanda – superando em vários momentos o Ajax.

O que o Feyenoord faz de diferente:

Mentalidade competitiva como meta formativa. Se no Ajax o foco absoluto é a técnica, no Feyenoord é o caráter. Os jogadores de Varkenoord destacam-se pela firmeza nas disputas, disposição física sem a bola e resiliência psicológica – vide de Vrij, Martins Indi, Wijnaldum e Kökçü. O clube afirma abertamente que forma atletas capazes de lidar com a pressão de Roterdã: diante de uma torcida que exige entrega e garra antes de qualquer preciosismo estético.

Zagueiros e motores no meio-campo. Onde o Ajax projeta meias refinados e o Sporting lapida dribladores, o Feyenoord forma zagueiros e primeiros volantes de elite. É um padrão mantido por gerações que evidencia como a identidade do clube molda posições específicas em campo.

Conexão com a comunidade local. O Feyenoord monitora principalmente Roterdã e sua região metropolitana, uma área com alta densidade populacional e forte presença de jovens de origens multiculturais. O futebol de rua de Roterdã – frequentemente citado pelos atletas como etapa decisiva de desenvolvimento – está na base desse processo.

A metodologia com Arne Slot. Slot comandou o Feyenoord de 2021 a 2024, conquistando a liga em 2023 ancorado em talentos da base como Geertruida e Kökçü, somados a reforços cirúrgicos de mercados alternativos. Seu jogo de posição foi uma evolução moderna da Zeister Visie – servindo de vitrine para que o Liverpool o contratasse em 2024 como sucessor de Klopp. Em 2025, Robin van Persie retornou ao clube como treinador principal.

A rede de academias do Feyenoord. Desde os anos 2000, o Feyenoord estabeleceu parcerias com academias internacionais, inclusive em Gana, exportando sua metodologia. Mais do que uma ferramenta de captação pura, é um movimento para posicionar a marca do Feyenoord globalmente como clube formador.

O comparativo: Amsterdã, Eindhoven, Roterdã

Três clubes, a mesma base federativa e três identidades distintas:

AjaxPSVFeyenoord
Pilar principalTécnica e entendimento táticoVelocidade e aspecto físicoMentalidade e duelo individual
Perfil típicoMeias refinados, camisas 10, volantes técnicosPontas rápidos e verticaisZagueiros, meio-campistas intensos
Foco em resultadoBaixo (questão de princípio)MédioMédio
Time BJong Ajax, Eerste DivisieJong PSV, Eerste DivisieSem time na Eerste Divisie
CaptaçãoNacional e internacionalRegional, Bélgica, InglaterraRoterdã e região metropolitana
InfraestruturaDe ToekomstDe HerdgangVarkenoord

O que esse comparativo evidencia: o sistema é nacional, mas a aplicação prática é local. Todos os três compartilham a Zeister Visie, o 4-3-3, o modelo TIC e os jogos em campo reduzido. O que muda é a dosagem de cada elemento – reflexo direto da cultura do clube, da cidade e de sua história.

As críticas

A Zeister Visie é antiga. Concebida nos anos 1980, ela passou por atualizações pontuais, mas suas premissas essenciais têm quatro décadas. Críticos locais apontam que a insistência cega no 4-3-3 e no jogo de posição tradicional não acompanha a velocidade de transição e a exigência física do futebol moderno. A seleção holandesa não vence um título de grande porte desde o final dos anos 1980 e ficou fora das Copas do Mundo de 2018 e da Euro 2016.

A Eredivisie não consegue segurar talentos. Assim como Portugal e França, a Holanda exporta para os grandes centros. Os melhores jogadores saem por volta dos 20 anos. Para PSV e Feyenoord, alcançar valores exorbitantes de transferência é ainda mais difícil do que para o Ajax, devido ao peso global da marca.

O Feyenoord sem time B na liga nacional. O clube não tem uma equipe B na Eerste Divisie e perde o estágio crucial de transição que Ajax, PSV e Benfica dominam. O time sub-21 atua em uma liga de base alternativa, com nível competitivo muito inferior ao profissional.

A documentação é ampla, os segredos de clube nem tanto. A Zeister Visie é aberta, detalhada e ensinada nos cursos oficiais para treinadores. Já as nuances exclusivas que diferenciam PSV e Feyenoord no dia a dia dependem, como em quase todo lugar, de análises retrospectivas de declarações e perfis de atletas formados.

Aplicação prática: o que você pode aproveitar

Esta seção apresenta a nossa visão metodológica.

A escola holandesa é um dos modelos mais acessíveis para treinadores, pois é extremamente bem documentada e aplica formatos reduzidos que incentivam a tomada de decisão autônoma dos jogadores.

Associe cada treino a um momento do jogo

Posse de bola, posse do adversário, transição ofensiva ou transição defensiva. Antes de posicionar os cones no gramado, decida claramente a qual momento aquele exercício atende. Se você não conseguir responder isso com precisão, a atividade provavelmente é apenas ocupação de tempo, não treino real.

Use o TIC como critério de avaliação

Técnica, visão tática e comunicação. O terceiro elemento costuma ser negligenciado na maioria das avaliações e é o mais revelador: com que qualidade o jogador faz a leitura dos companheiros, ajusta coberturas e ajuda o time com comandos verbais e corporais assertivos? Isso se desenvolve em campo – desde que o treinador observe ativamente.

Confie nos formatos de jogo reduzido

Estimule pequenos jogos nas categorias menores. Em confrontos de 3 contra 3 ou 5 contra 5, não gaste energia tentando engessar posições ou esquemas táticos rígidos. As crianças precisam de repetição prática: muitos toques na bola, finalizações frequentes a gol e liberdade criativa sem intervenções excessivas da beira do campo.

Defina a identidade de jogo da sua equipe

Ajax, PSV e Feyenoord partem da mesma base conceitual, mas formam jogadores completamente distintos por priorizarem atributos diferentes. Pergunte-se qual é o perfil do seu time: refinamento técnico, velocidade em transição ou imposição física e mentalidade de duelo? Não existe escolha errada, mas sem uma definição clara sua equipe não terá personalidade.

Seja consistente com o modelo pedagógico

Se o seu clube adota o 4-3-3 como padrão formativo, mantenha-o em todas as categorias com exigências de função bem definidas. Um jovem que sobe do sub-13 para o sub-15 não deveria reaprender conceitos básicos, apenas adaptar-se a uma velocidade de jogo superior. Se cada treinador joga de uma forma totalmente desconectada, o atleta perde um ano de evolução em cada mudança de faixa etária.

Mentalidade competitiva também se treina

O exemplo do Feyenoord mostra que garra e resiliência não são traços puramente inatos. Programe jogos-treino começando em desvantagem no placar, tolere contato físico legítimo sem parar o jogo a cada lance e mantenha em campo o atleta que cometeu um erro para que ele resolva o problema jogando. O que você valida ou pune no gramado define a postura do seu elenco.

O que você deve memorizar

  • A base de formação holandesa repousa sobre a Zeister Visie da KNVB: o futebol se aprende no jogo, 4-3-3 pedagógico, modelo TIC, quatro momentos do jogo, campos reduzidos e capacitação técnica unificada para treinadores.
  • Ajax, PSV e Feyenoord usam a mesma estrutura com identidades distintas: técnica em Amsterdã, velocidade e potência física em Eindhoven, fibra e combate individual em Roterdã.
  • O PSV apoia-se na infraestrutura e biometria da Philips, na rodagem do Jong PSV na segunda divisão e na captação fronteiriça na Bélgica. Clube dominante no país a partir de 2024.
  • O Feyenoord prepara jogadores para a realidade de Roterdã: duelo físico, intensidade de corrida e caráter. Tradicional celeiro de zagueiros e meio-campistas combativos.
  • O modelo sofre críticas pelo conservadorismo estrutural e a Eredivisie segue como vitrine de exportação imediata para os principais mercados.
  • Conceitos aplicáveis ao seu trabalho: estruturação pelos quatro momentos, modelo TIC como diagnóstico, campos reduzidos na formação de base e clareza na escolha de uma identidade coletiva.

Ao planejar treinos no Coach OS divididos por fases do jogo, você aplica a dinâmica dos quatro momentos principais. A ferramenta organiza a periodização, mas o direcionamento tático e pedagógico continua sendo a sua principal função antes de pisar no gramado.

Perguntas frequentes

O que é a Zeister Visie?+
É a filosofia oficial de formação de jogadores da federação holandesa (KNVB), estabelecida nos anos 1980 sob a influência de Rinus Michels. Ela determina que o futebol se ensina por meio do próprio jogo, adota o 4-3-3 como padrão pedagógico de ensino e o modelo TIC como matriz avaliativa de atletas.
O que significa a sigla TIC?+
Significa Techniek, Inzicht e Communicatie (técnica, visão tática e comunicação dentro de campo). Trata-se da matriz de avaliação padrão da federação holandesa (KNVB). O Ajax, por sua vez, desenvolveu sua variação interna, o TIPS.
A base do PSV é superior à do Ajax?+
Não superior, mas diferente na ênfase. O PSV foca em atletas com maior velocidade terminal, potência e capacidade física, enquanto o Ajax prioriza refinamento técnico apurado e leitura posicional. No cenário recente entre as equipes principais, o PSV vive melhor momento esportivo, apesar do peso histórico de grife da academia de Amsterdã.
Por que o Feyenoord revela tantos defensores de alto nível?+
Porque seu processo de formação prioriza combatividade, disciplina tática, ganho de duelos individuais e resiliência física – em perfeita consonância com a cultura operária de sua torcida. Isso naturalmente destaca zagueiros e meio-campistas defensivos.
Quais são as dimensões de campo reduzido na base holandesa?+
Desde a reforma de 2017: até o sub-10 atua-se no 6 contra 6 em campo reduzido; sub-11 e sub-12 utilizam o formato 8 contra 8; apenas a partir do sub-13 adota-se o 11 contra 11 em campo oficial.

Fontes e referências bibliográficas

  • KNVB: Documentações oficiais sobre a Zeister Visie, a matriz TIC e as diretrizes para o futebol infantil e juvenil.
  • Rinus Michels: Teambuilding: The Road to Success – obra de referência sobre a construção da filosofia holandesa de ensino do futebol.
  • David Winner: Brilliant Orange – análise aprofundada da cultura do futebol nos Países Baixos e as nuances entre Amsterdã, Eindhoven e Roterdã.
  • Entrevistas concedidas por diretores e coordenadores metodológicos das categorias de base do PSV e do Feyenoord à imprensa especializada.
  • CIES Football Observatory: Relatórios periódicos sobre clubes formadores no futebol europeu.

Nota metodológica: A Zeister Visie é um documento público e institucional. A descrição das metodologias internas do PSV e do Feyenoord baseia-se em depoimentos públicos de profissionais dos clubes e na análise do perfil dos atletas revelados, e não em apostilas curriculares restritas.

Planejamento de treinos sem complicações

O Coach OS monta sua próxima sessão a partir de mais de 1.244 exercícios – adaptados à idade, tamanho do grupo e objetivo tático.

Teste 30 dias grátis
Escreva no WhatsApp