Antes da academia: potrero, baby fútbol, futsal, várzea
Os grandes clubes sul-americanos recebem crianças aos nove, dez, onze anos. O que essas crianças fizeram até então se diferencia radicalmente da Europa.
Argentina: potrero e baby fútbol
O potrero é o terreno baldio irregular onde as crianças argentinas jogam futebol — sem treinador, sem linhas, sem categorias. A palavra virou símbolo de uma formação que não é formação: as crianças aprendem porque jogam, contra mais velhos, com bola ruim, em piso ruim. Diego Maradona, Carlos Tevez e Juan Román Riquelme descreveram o potrero como sua escola.
Ao lado dele existe o baby fútbol: ligas organizadas para crianças entre cerca de cinco e treze anos, quase sempre em clubes de bairro, em campos pequenos, muitas vezes em quadra ou em cimento, com cinco a sete jogadores por lado. Messi jogou baby fútbol no Grandoli, em Rosário, antes de chegar ao Newell's. O formato se parece com o futsal: espaços estreitos, muitos toques, duelos constantes, bola rápida.
A combinação — potrero sem estrutura e baby fútbol em formato reduzido — significa que uma criança argentina de dez anos tem milhares de horas a mais de contato com a bola do que uma criança europeia que treina num clube desde os sete. E que passou essas horas sem instrução.
Brasil: futsal e várzea
No Brasil é o futsal. O jogo está espalhado por escolas e clubes de todo o país, e quase todos os profissionais brasileiros dos últimos trinta anos o jogaram quando crianças: Ronaldinho, Neymar, Vinícius Júnior, Philippe Coutinho. Os treinadores de futsal no Brasil são formadores em sentido estrito: ensinam técnica, fintas, condução sob pressão. A passagem para o campo costuma acontecer entre os dez e os doze anos.
A isso soma-se a várzea, a contraparte brasileira do potrero: futebol amador e de rua nas periferias, em areia, terra e cimento. Menos romântica que o mito, mas real: a densidade de futebol informal nas cidades brasileiras é maior que em qualquer lugar da Europa.
O que isso significa
As academias sul-americanas recebem aos dez anos crianças que já são futebolistas. A academia não precisa ensinar a elas como dominar uma bola sob pressão. Precisa ensinar a jogar em equipe. É uma tarefa diferente da de uma academia europeia, que recebe crianças aos oito anos e precisa ensinar as duas coisas.
Por isso a pergunta "como treinam o Boca e o River?" é em parte a pergunta errada. A resposta para "de onde vem isso?" é, em grande medida: não vem do treino.
A estrutura: inferiores e base
Argentina
Os clubes argentinos organizam sua formação em inferiores, por ano da novena (aproximadamente sub-13) até a cuarta (aproximadamente sub-20), e acima delas a reserva. Todas jogam campeonatos da AFA contra as inferiores dos outros clubes. A competição é dura, pública e orientada ao resultado. Um Boca-River da séptima é visto por centenas de espectadores e comentado na imprensa.
Os grandes clubes mantêm uma pensión, um alojamento para jogadores do interior. A Argentina é grande, os talentos estão espalhados por todo o território, e o caminho até Buenos Aires é uma migração para uma criança de doze anos. Julián Álvarez chegou aos onze anos de Calchín, um povoado de cerca de 3 mil habitantes na província de Córdoba, e cresceu na pensión do River Plate. A pensión faz parte da identidade do clube e é uma das razões pelas quais o vínculo entre jogadores e clube é mais forte na Argentina que na Europa.
A subida ao time principal acontece cedo. Os clubes argentinos estão sob pressão econômica e lançam talentos aos 17 ou 18 anos porque precisam vendê-los. É necessidade, mas é também o que o Benfica reproduz com sua equipe B: futebol de adultos para jogadores de 18 anos.
Brasil
Os clubes brasileiros falam em base: as categorias sub-11 a sub-20. A vitrine mais importante é a Copa São Paulo de Futebol Júnior, a Copinha, um torneio sub-20 em janeiro transmitido para todo o país, que empurra com regularidade jogadores para os times principais e para a Europa. Além dela, o campeonato sub-20, o sub-17 e, desde 2011, a Libertadores sub-20.
O acesso é mais aberto que na Argentina. As peneiras — dias de avaliação abertos aos quais vão centenas de crianças — são normais no Brasil. Ao lado delas, olheiros, intermediários e uma rede de agentes que atua mais cedo e de forma mais agressiva que na Europa. Um talento brasileiro tem muitas vezes empresário aos 14 anos.
As vendas para a Europa acontecem aos 16, quando se assina o primeiro contrato profissional. A transferência em si ocorre aos 18, porque as regras da FIFA proíbem transferências internacionais de menores. Vinícius Júnior foi vendido em 2017 aos 16 anos ao Real Madrid e saiu em 2018. Endrick ao Real Madrid em 2022, chegada em 2024. Estêvão ao Chelsea em 2024, chegada em 2025.
River Plate: La Máquina e a pensión
O River Plate é o clube da elegância argentina. O apelido remonta ao time dos anos 1940 — La Máquina — e é cultivado até hoje como identidade: futebol técnico e de combinação, jogadores com classe com a bola.
A base treina em Ezeiza, ao sul de Buenos Aires, no River Camp, onde também trabalha o time principal. A pensión faz parte do complexo.
Formados no clube: Pablo Aimar, Javier Saviola, Ariel Ortega, Hernán Crespo, Esteban Cambiasso, Gonzalo Higuaín, Radamel Falcao — que chegou aos 15 anos da Colômbia —, Erik Lamela, Julián Álvarez, Enzo Fernández, Exequiel Palacios, Gonzalo Montiel, Claudio Echeverri e Franco Mastantuono, que saiu em 2025 aos 18 anos para o Real Madrid.
O que o River faz diferente:
Captação em todo o país. O River tem uma rede de observadores em todas as províncias e leva crianças de dez ou onze anos para Ezeiza. A pensión torna isso possível. Álvarez, Fernández e Palacios vieram todos do interior.
A ideia de jogo como filtro. O River procura jogadores que combinem com La Máquina: técnicos, espertos, com inteligência de jogo. Um jogador que é só rápido ou só forte tem mais dificuldade no River que no Boca.
A era Gallardo como modelo de permeabilidade. Marcelo Gallardo treinou o River de 2014 a 2022, ganhou duas Libertadores — 2015 e 2018, esta última na final contra o Boca em Madri — e integrou os formados com constância. Álvarez, Fernández, Palacios e Montiel viraram titulares com ele e depois campeões do mundo.
Boca Juniors: Casa Amarilla e a pressão
O Boca Juniors é o contraponto. O clube do bairro portuário de La Boca representa a garra: luta, vontade, resistência. A Bombonera é o estádio mais barulhento da América do Sul, e a pressão que os jogadores suportam ali marca a formação.
A base treina em Casa Amarilla, ao lado do estádio; o time principal, em Ezeiza. A separação física é uma desvantagem que o Boca conhece.
Formados no clube: Carlos Tevez, Fernando Gago, Éver Banega, Nicolás Gaitán, Leandro Paredes, Cristian Medina, Exequiel Zeballos, Valentín Barco, que foi para o Brighton em 2024, e Aaron Anselmino, vendido ao Chelsea em 2024. Riquelme chegou aos 17 anos do Argentinos Juniors — um caso limítrofe, mas o jogador que mais marcou a identidade do Boca.
O que o Boca faz diferente:
A competição como formação. As inferiores do Boca jogam para ganhar. O clube vê a pressão da Bombonera como algo para o qual é preciso preparar as crianças — e faz isso colocando-as cedo sob pressão. É o contrário do princípio do Ajax e parecido com o do Benfica.
Riquelme como presidente. Juan Román Riquelme, o maior ídolo da história do clube, é presidente desde 2023 e declarou a base como prioridade. Os jovens entraram mais e antes. Os resultados esportivos do time principal nesse período ficaram abaixo das expectativas — um exemplo de como é difícil combinar formação e títulos num clube com as exigências do Boca.
Mentalidade antes de sistema. Os formados no Boca se destacam menos por uma ideia de jogo comum do que por uma atitude comum. Tevez e Paredes têm pouco em comum além da disposição de assumir responsabilidade sob pressão. É isso que o Boca forma.
Flamengo: Ninho do Urubu
O Flamengo é o clube com mais torcedores do Brasil e, desde cerca de 2019, o de maior força financeira. Ganhou a Libertadores em 2019, 2022 e 2025 — esta última com um 1 a 0 sobre o Palmeiras em Lima — e é assim o primeiro clube brasileiro com quatro títulos.
A base treina no Ninho do Urubu, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde também trabalha o time principal. Em 2019 morreram ali dez jogadores da base num incêndio no alojamento. A tragédia marcou profundamente o clube e o debate sobre a hospedagem de jovens jogadores no Brasil.
Formados no clube: Zico, Júnior, Adriano, Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, Reinier, Matheus França, João Gomes, Wesley, Lorran. Vinícius é o caso mais conhecido: vendido aos 16 anos ao Real Madrid por cerca de 45 milhões de euros, hoje um dos melhores jogadores do mundo.
O que o Flamengo faz diferente:
A força financeira como instrumento de retenção. Ao contrário da maioria dos clubes sul-americanos, o Flamengo consegue segurar jogadores e ao menos se aproximar dos salários europeus. O elenco campeão da Libertadores de 2025 tinha retornados da Europa — Jorginho, Alex Sandro, Danilo — ao lado dos formados na base. O modelo é uma mistura de formação e compra que na América do Sul é nova.
O treinador vindo da base. Filipe Luís, ex-jogador da seleção, treinou a partir de 2023 o sub-17 e o sub-20 do Flamengo, assumiu o time principal em 2024 e ganhou a Libertadores em 2025. O caminho de treinador de base a treinador principal dentro do mesmo clube é o que Marco Rose fez em Salzburgo e Bruno Lage no Benfica — e que no Brasil era raro.
Investimento na base. Desde 2025, sob o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Flamengo reorganizou sua base e tenta reduzir a vantagem do Palmeiras. O clube ganhou a Libertadores sub-20 em 2024 e 2025.
Palmeiras: a academia mais produtiva da América do Sul
Na década de 2020 o Palmeiras tornou-se a academia dominante da América do Sul. Os números que a imprensa brasileira publicou em janeiro de 2026: desde 2020, 51 jogadores da própria base estrearam no time principal. Nesse período o clube arrecadou mais de 1,5 bilhão de reais com a venda de formados. As maiores vendas: Estêvão ao Chelsea por até 61,5 milhões de euros com bônus, Endrick ao Real Madrid por até 60 milhões, Vitor Reis ao Manchester City por cerca de 37 milhões — a maior quantia já paga por um zagueiro brasileiro vindo de um clube brasileiro.
O arquiteto é João Paulo Sampaio, coordenador da base desde 2015. Sob ele o clube triplicou o número de treinadores da base e estendeu a captação praticamente a todo o país. O Palmeiras ganhou a Copinha em 2022 e 2023 e a Libertadores sub-20 em 2022.
O que o Palmeiras faz diferente:
A formação como negócio principal. Sampaio disse abertamente em entrevistas: o objetivo era transformar o Palmeiras numa das cinco melhores academias do mundo, e a medida disso são as receitas de venda e as estreias. Segundo o próprio clube, foram investidos cerca de 200 milhões de reais na base e retirados quase um bilhão. É o modelo do Benfica com o celeiro brasileiro.
Permeabilidade sob Abel Ferreira. O treinador português, no cargo desde 2020, ganhou a Libertadores em 2020 e 2021 e integrou os formados com constância: Endrick, Luis Guilherme, Estêvão, Vitor Reis, Allan. Que um treinador português com filosofia de formação portuguesa dirija a fase mais produtiva da base do Palmeiras não é acaso. A ligação entre o futebol português e o brasileiro está mais estreita do que nunca.
Vincular cedo, liberar tarde. O Palmeiras prende os talentos aos 16 anos com contratos profissionais de cláusulas altas e negocia de posição de força. Segundo o clube, recusou ofertas de 30, 35 e 40 milhões por Estêvão quando ele tinha 15 anos, e o vendeu um ano depois por 45 milhões mais bônus.
Estrutura em vez de mito. O sucesso do Palmeiras é a história menos romântica deste artigo. Sem lenda do potrero, sem narrativa de futebol de rua. Um coordenador, quadro de treinadores triplicado, rede de captação nacional, estratégia de venda clara. É o modelo europeu no Brasil — e funciona.
As críticas
O mito encobre a perda. O potrero e a várzea são reais, mas estão desaparecendo. As cidades argentinas e brasileiras perdem espaços livres, as crianças passam mais tempo dentro de casa, o futebol informal recua. As academias percebem isso e começam a reconstruir o que antes acontecia sozinho — com programas de futsal e formatos reduzidos. Se funciona, está em aberto.
A exportação sangra os campeonatos. Os clubes sul-americanos vendem seus melhores jogadores entre os 16 e os 19 anos. Os campeonatos são esportivamente mais fracos do que poderiam ser. Flamengo e Palmeiras conseguem amortecer isso em parte com dinheiro; Boca e River, não.
O mercado de agentes. No Brasil, a influência de intermediários sobre garotos de 14 anos é um problema que a federação mal controla. Clubes, agentes e famílias negociam sobre crianças. É o outro lado de um mercado aberto.
Pressão por resultado na base. As inferiores argentinas jogam por resultado, diante de público e com cobertura da imprensa. Isso produz jogadores que suportam pressão. Também queima jogadores que aos 14 anos ainda não a suportam.
A segurança das crianças. O incêndio do Ninho do Urubu em 2019 mostrou que os alojamentos de jovens jogadores na América do Sul não atendem em todo lugar aos padrões tidos como óbvios na Europa. Não é uma questão de método, mas faz parte de uma descrição honesta.
Pouca metodologia publicada. Como na maioria das academias desta série, não existe currículo. O que se transfere são princípios e estruturas, não exercícios.
Aplicação: o que você pode aproveitar
Esta seção é a nossa interpretação.
A lição sul-americana é a mais incômoda desta série, porque diz que o mais importante acontece antes do treino. Mas ela se transfere.
Crie tempo de potrero
Jogo livre sem treinador não é tempo de treino perdido — é a mesma lógica de deixar as crianças jogarem. É o mais valioso. Vinte minutos no início de cada sessão nas categorias infantis e juvenis: bolas fora, gols postos, jogar. Você não intervém. Não conta. Não corrige. Esse é o potrero que seus jogadores já não têm.
Futsal no inverno, campo pequeno no verão
A lição brasileira: espaços estreitos obrigam à técnica. No inverno, futsal em vez de futebol de salão com bandas. No campo, 3 contra 3 e 4 contra 4 em espaços pequenos com gols pequenos. Não como aquecimento, mas como núcleo da sessão até o sub-11.
Deixe os mais velhos jogarem contra os mais novos
O potrero mistura idades. Uma criança de dez anos que joga contra garotos de treze aprende a proteger a bola sob pressão, porque senão não tem bola. Uma vez por semana um jogo misto entre duas categorias rende mais que qualquer exercício de duelo.
Dose a pressão, não a evite
A lição argentina, com medida: os jogadores precisam de situações em que algo esteja em jogo. Um torneio de treino com tabela, uma série de pênaltis diante de todo o grupo, um jogo em que os perdedores recolhem os gols. Não toda semana. Mas com regularidade.
Aprenda com o Palmeiras: a estrutura vence o mito
Para quem tem responsabilidade num clube: o Palmeiras triplicou o número de treinadores da base e montou uma rede de captação. Isso não é magia sul-americana, é investimento em pessoas. Um clube amador não consegue triplicar seus treinadores, mas consegue garantir que cada time tenha dois.
A pensión como ideia
River e Boca retêm jogadores pelo pertencimento. Uma criança que cresce no clube sai com mais dificuldade. Para um clube amador, isso significa: o clube é mais que o treino. Festas, viagens, assistir juntos ao time principal. Não custa nada e retém mais que qualquer exercício.
O essencial
- As academias sul-americanas recebem aos dez anos crianças que já são futebolistas, formadas pelo potrero, pelo baby fútbol, pelo futsal e pela várzea. A pergunta "de onde vem isso?" tem uma resposta que está, em boa parte, antes do treino.
- As inferiores argentinas são competitivas e públicas. A pensión vincula jogadores de todo o país. A subida ao time principal chega cedo, por necessidade e com efeito.
- O River forma para La Máquina, o Boca para a Bombonera. Duas identidades, dois tipos de jogador.
- O Flamengo une formação e força financeira e ganhou a Libertadores de 2025 com Filipe Luís, seu próprio treinador de base.
- O Palmeiras é a academia mais produtiva da América do Sul — não por mito, mas por estrutura: quadro de treinadores triplicado, captação nacional, estratégia de venda clara.
- O futebol informal desaparece, a exportação sangra os campeonatos e o mercado de agentes é um problema.
- Transferível: jogo livre sem treinador, futsal e campo pequeno, categorias misturadas, pressão dosada, investimento em treinadores, pertencimento como vínculo.
O exercício mais importante desta série não é um exercício: bolas fora, gols postos, vinte minutos em silêncio. O Coach OS ajuda você a planejar os outros 70.
FAQ: perguntas frequentes
Fontes e leituras
- Jonathan Wilson: Angels with Dirty Faces: The Footballing History of Argentina — sobre o potrero, o mito do pibe e a cultura de formação argentina.
- Alex Bellos: Futebol: The Brazilian Way of Life — sobre a várzea, o futsal e a cultura futebolística brasileira.
- Reportagens da imprensa esportiva brasileira (Lance, Goal Brasil, ESPN Brasil, CNN Brasil) sobre a base do Palmeiras, João Paulo Sampaio e as receitas de venda de 2024 a 2026.
- CONMEBOL: relatos sobre a Copa Libertadores de 2025 e a Libertadores sub-20.
- Entrevistas com Marcelo Gallardo sobre a integração de jovens no River Plate, 2014-2022.
- Entrevistas com Filipe Luís sobre o caminho de treinador de base a treinador principal no Flamengo.
Nota sobre as fontes: os números do Palmeiras vêm de reportagens da imprensa brasileira entre janeiro e agosto de 2026 e baseiam-se em parte em dados do clube. Os valores de transferência com bônus variam conforme a fonte; as quantias base são menores. A descrição do treino nas academias apoia-se em declarações concordantes do entorno, não em currículos publicados.