SC Freiburg: a escola de futebol
De onde vem o modelo
O SC Freiburg nunca havia jogado a Bundesliga antes de 1993. Volker Finke treinou o clube de 1991 a 2007, dezesseis anos, e trouxe nos anos 1990 a defesa orientada à bola com linha de quatro para um campeonato que ainda jogava com líbero. O Freiburg era admirado pelo seu futebol e lamentado pelo seu orçamento. Finke sabia que o clube nunca poderia comprar o que precisava.
Em 2001 abriu a escola de futebol de Freiburg, o centro de formação do clube. O nome é uma escolha deliberada. Não se chama academia, nem campus, nem centro de rendimento. Chama-se escola, e o conceito leva a palavra a sério: os jovens frequentam escolas comuns de Freiburg, e o clube organiza treino e acompanhamento em torno da rotina escolar, não o contrário. Um jogador que negligencia a escola tem problemas no clube.
A escola é dirigida desde o início pela ideia de que o clube forma pessoas que também podem se tornar futebolistas — não futebolistas que vão à escola de lado. Soa a folheto. Em Freiburg é prática, e é a razão pela qual as famílias da região levam seus filhos para lá.
Christian Streich
Christian Streich é a figura central. Treinou o sub-19 de Freiburg de 1995 a 2011, dezesseis anos, e assumiu o time principal em 2011, dirigindo-o até 2024 — treze anos. Nenhum treinador da Bundesliga ficou mais tempo no cargo. Seu sucessor, Julian Schuster, foi jogador e capitão do Freiburg e foi preparado internamente.
Esse é o núcleo do modelo de Freiburg: a continuidade como método. Finke dezesseis anos, Streich dezesseis mais treze, Schuster da casa. O diretor esportivo Jochen Saier e o dirigente Klemens Hartenbach também vieram do clube. Em Freiburg todos se conhecem, e a ideia de jogo não é reinventada a cada treinador.
Streich treinou o sub-19 com a mesma filosofia com que depois treinou os profissionais: intensidade, volume de corrida, sentido coletivo, estruturas claras sem bola e uma saída que dosa o risco. Um jogador que subia do sub-19 conhecia o treinador e a ideia de jogo. É a ideia do Ajax de uma mesma língua em todas as categorias, aplicada por uma pessoa em vez de um currículo.
O que o Freiburg faz diferente
Paciência com os tardios e os esquecidos. O Freiburg contrata jogadores que outros dispensaram. Nico Schlotterbeck chegou aos 17 anos da base do Karlsruher SC. Robin Koch veio de Kaiserslautern, Vincenzo Grifo após várias etapas, Lucas Höler da Regionalliga. Christian Günter veio da Floresta Negra e jogou doze anos no clube. A captação não procura o talento que todos veem. Procura o que se encaixa na ideia de jogo e precisa de tempo.
Sem leilões por crianças. O Freiburg renuncia em grande medida a trazer crianças com menos de 14 anos de regiões distantes. As categorias menores vêm do sul de Baden. O clube considera a família e o entorno parte da formação — como o Athletic e o Lyon, ainda que sem regra escrita.
A equipe B na terceira divisão. Desde 2021 o SC Freiburg II joga na terceira divisão, com um dos elencos mais jovens da liga. É a resposta alemã ao que oferecem o Benfica B e o Jong PSV: futebol de adultos por pontos para jogadores de 19 anos. O Freiburg é um dos poucos clubes da Bundesliga que a manteve e buscou o acesso de propósito, enquanto outros extinguiam suas equipes B.
Formados no clube: Matthias Ginter, Maximilian Philipp, Dennis Aogo, Ömer Toprak, Christian Günter, Nico e Keven Schlotterbeck, Kevin Schade, Noah Weißhaupt, Merlin Röhl, Yannik Keitel, Noah Atubolu. Além dos que chegaram esquecidos e viraram jogadores de seleção: Robin Koch, Luca Waldschmidt, Mark Flekken.
As críticas
O Freiburg não é replicável. O modelo funciona porque o clube é pequeno, porque todos se conhecem, porque a continuidade é possível. Um clube maior, sob mais pressão, não pode se dar ao luxo de dezesseis anos de Streich — ou pelo menos acredita nisso.
O retorno é sólido, não espetacular. O Freiburg produz titulares de Bundesliga e jogadores de seleção. Não produz classe mundial. Ginter e Schlotterbeck são zagueiros muito bons. Se o modelo poderia também revelar um Musiala é uma pergunta em aberto.
A força é uma pessoa. A saída de Streich em 2024 é o teste. Schuster superou bem a primeira temporada, com classificação europeia. Se a cultura sustenta a mudança no longo prazo, resta ver. Clubes cujo método depende de uma pessoa têm o problema que o artigo sobre o Liverpool descreve.
TSG Hoffenheim: o laboratório
De onde vem o modelo
Hoffenheim é uma aldeia de cerca de 3 mil habitantes no Kraichgau. Em 1990 o clube jogava um campeonato distrital. Dietmar Hopp, cofundador da SAP e ele próprio formado no Hoffenheim, financiou a ascensão que terminou em 2008 na Bundesliga — com Ralf Rangnick como treinador e um futebol que surpreendeu o campeonato: pressão alta, transição rápida, velocidade.
A crítica foi desde o início a mesma que depois se fez ao Leipzig: produto artificial, clube de laboratório, sucesso comprado. Hopp respondeu investindo no que sustenta um clube no longo prazo: a formação. Em 2009 abriu o centro de treinamento de Zuzenhausen, a academia foi ampliada, e o Hoffenheim se posicionou como o clube que une formação, ciência e tecnologia.
A tecnologia
Na década de 2010 o Hoffenheim virou o laboratório do futebol alemão.
O Footbonaut, instalado em Zuzenhausen em 2014: uma máquina de treino em que bolas chegam de oito direções e o jogador precisa passá-las para zonas-alvo que se acendem. O Dortmund o teve primeiro, em 2012; o Hoffenheim o integrou à formação. A ideia: técnica de passe, orientação e reação em grande número de repetições, com cada passe medido.
A Helix, 2015: uma sala com tela de 180 graus onde situações de jogo são simuladas. Os jogadores precisam acompanhar movimentos, contar jogadores, decidir — treino cognitivo sem bola. A Helix mira a percepção, a antecipação e a visão.
O painel de vídeo à beira do campo: cenas de treino são mostradas em tempo real numa tela grande, para que os jogadores vejam de imediato o que o treinador quer dizer. Com a SAP como parceira, dados de treino — trajetos, padrões de passe, carga — foram coletados e analisados.
O TSG ResearchLab, fundado em 2019, liga clube e pesquisa: ciência do esporte, psicologia, tecnologia, com parcerias universitárias.
Nagelsmann
A história mais conhecida do Hoffenheim não é uma tecnologia, é um treinador. Julian Nagelsmann chegou em 2010 como treinador de base, dirigiu o sub-17 e o sub-19 e assumiu o time principal em fevereiro de 2016, aos 28 anos, em posição de rebaixamento. Salvou o time, levou-o em 2017 aos playoffs da Liga dos Campeões e em 2018 à fase de grupos. Depois, Leipzig, Bayern, seleção.
A ascensão de Nagelsmann é a prova de que a academia do Hoffenheim não forma apenas jogadores, mas treinadores. O clube fez isso de forma sistemática: Alfred Schreuder, Sebastian Hoeneß, Christian Ilzer — treinadores que trabalharam na estrutura da TSG antes de assumir times principais.
O que o Hoffenheim faz diferente
Captação por potencial, não por origem. O Hoffenheim não tem região de captação. Contrata jogadores de toda a Alemanha e do exterior, muitas vezes aos 15 ou 16 anos, e lhes oferece uma infraestrutura que outros não têm. Christoph Baumgartner chegou aos 17 da Áustria. Maximilian Beier aos 16 de Cottbus.
Formados no clube: Niklas Süle, Nadiem Amiri, Dennis Geiger, Kevin Akpoguma, Christoph Baumgartner, Maximilian Beier, Tom Bischof, que foi para o Bayern em 2025, e Umut Tohumcu.
A academia como campo de testes. Métodos novos são introduzidos na base antes de chegar aos profissionais. É uma inversão deliberada da relação habitual, em que a base copia o que os profissionais fazem.
As críticas
Falta a prova. Não existe estudo que mostre que o Footbonaut ou a Helix tornem os jogadores melhores do que jogos reduzidos clássicos. O Hoffenheim nunca afirmou isso — o clube fala em complemento. Mas a percepção pública transformou o complemento em núcleo. Treinadores da estrutura da TSG disseram várias vezes que a tecnologia é uma parte pequena do treino e que o essencial acontece no campo.
O modelo depende de Hopp. Sem Dietmar Hopp não haveria Bundesliga em Hoffenheim, nem academia em Zuzenhausen, nem ResearchLab. Hopp se retirou da direção em 2023, e os anos esportivos desde 2020 foram instáveis: trocas de treinador, luta contra o rebaixamento, disputas internas. A academia segue produzindo, mas o clube que a sustenta ficou instável.
A rejeição dos torcedores. Como o Leipzig, o Hoffenheim é percebido pelos torcedores de outros clubes como um corpo estranho. Não é uma questão de método, mas limita o que o clube pode ser: um lugar de formação, mas não um modelo que outros citem com gosto.
Tecnologia sem cultura. O Freiburg tem cultura sem tecnologia. O Hoffenheim tem tecnologia e briga há anos pela cultura. A pergunta sobre qual das duas sustenta é respondida pelos últimos cinco anos mais a favor do Freiburg.
A comparação
| SC Freiburg | TSG Hoffenheim | |
|---|---|---|
| Base | Continuidade, escola, região | Capital, tecnologia, pesquisa |
| Treinadores | Finke 16 anos, Streich 13 anos | Trocas frequentes, mas treinadores formados na casa |
| Captação | Sul de Baden até o sub-14, esquecidos de toda a Alemanha | Toda a Alemanha e o exterior, muitas vezes a partir dos 15 |
| Equipe B | Terceira divisão desde 2021 | Regionalliga |
| Formados mais conhecidos | Ginter, Schlotterbeck, Günter | Süle, Baumgartner, Beier, Bischof |
| Treinador formado mais conhecido | Julian Schuster | Julian Nagelsmann |
| Força | Uma cultura que não muda | Uma infraestrutura que ninguém mais tem |
| Fraqueza | Não replicável, sem saída de classe mundial | Dependente de Hopp, instável esportivamente |
O que a comparação mostra: os dois desmentem que um clube alemão sem grande cidade e sem orçamento do Bayern não possa formar. E os dois mostram, de modos diferentes, o que sustenta a formação — pessoas que ficam, ou uma infraestrutura que fica. Onde faltam as duas, nem o melhor conceito ajuda.
Aplicação: o que você pode aproveitar
Esta seção é a nossa interpretação.
Para clubes amadores alemães, Freiburg e Hoffenheim são os modelos mais realistas desta série, porque trabalham em condições alemãs.
Fique
A lição de Freiburg é a mais simples e a mais difícil. Um treinador de base que fica cinco anos num clube e acompanha uma geração do sub-13 ao sub-17 vale mais que cinco treinadores com cinco conceitos. Para os clubes: segurem os treinadores. Para os treinadores: não saiam por causa de uma má temporada.
Pergunte pelas notas
O "escola primeiro" de Freiburg não é idealismo, é instrumento de vínculo. As famílias levam os filhos para onde eles não são vistos apenas como futebolistas. Um treinador que sabe quando há provas e adapta o treino segura jogadores por mais tempo.
Olhe os dispensados
Schlotterbeck veio de Karlsruhe porque o Freiburg olhou onde outros haviam desistido. É a mesma lição do Brentford: o jogador devolvido por um clube maior não ficou pior. Ele precisa de um clube que lhe dê tempo.
Tecnologia como complemento, nunca como núcleo
A lição do Hoffenheim é um alerta. Se o seu clube quer gastar em tecnologia — análise de vídeo, rastreamento, aplicativos —, que seja como complemento ao que acontece no campo. A pergunta antes de cada investimento: isso melhora o jogo reduzido ou o substitui? Só o primeiro caso vale a pena.
Forme treinadores, não só jogadores
Nagelsmann e Schuster vieram os dois da base do próprio clube. Um clube que identifica treinadores jovens, os desenvolve e lhes dá responsabilidade terá em dez anos treinadores que conhecem a cultura da casa. É a ideia do Ajax aplicada ao banco.
A equipe B é formação
O Freiburg buscou de propósito o acesso à terceira divisão porque jogadores de 19 anos precisam de futebol de adultos. Para clubes amadores: a equipe B não é estacionamento para veteranos. É a ponte do juvenil ao time principal. Quem a trata assim perde menos jogadores na passagem.
O essencial
- O Freiburg forma com continuidade, escola e paciência. Finke dezesseis anos, Streich treze, Schuster da casa. A equipe B joga na terceira divisão.
- O Hoffenheim forma com capital, tecnologia e pesquisa. Footbonaut, Helix, ResearchLab — e treinadores como Nagelsmann vindos da base.
- Os dois são clubes de província sem região de captação e desmentem que seja preciso Munique.
- A fraqueza do Freiburg é o retorno — sólido, não espetacular — e a dependência de pessoas. A do Hoffenheim é a dependência de Hopp e a instabilidade do clube.
- A comparação dos últimos anos fala a favor da cultura sobre a tecnologia. Mas as duas precisam de um clube que as sustente.
- Transferível: ficar, perguntar pelas notas, olhar os dispensados, tecnologia só como complemento, formar treinadores, tratar a equipe B como ponte.
O Coach OS tem em comum com o Freiburg o fato de vir de uma região e ser feito para treinadores que ficam. A visão de clube no Club OS mostra o que se treina em cada categoria; a continuidade vem das pessoas.
FAQ: perguntas frequentes
Fontes e leituras
- SC Freiburg: apresentação da escola de futebol no site do clube e em publicações próprias.
- Entrevistas com Christian Streich, Jochen Saier e Klemens Hartenbach sobre a filosofia de formação de Freiburg.
- TSG Hoffenheim: apresentação da academia, do Footbonaut, da Helix e do ResearchLab.
- Christoph Biermann: Matchplan — sobre o Hoffenheim, a tecnologia e o treino apoiado em dados.
- Entrevistas com Julian Nagelsmann sobre sua passagem como treinador de base em Hoffenheim.
- Reportagens sobre o papel das equipes B na terceira divisão, entre outras sobre o SC Freiburg II.
Nota sobre as fontes: nenhum dos dois clubes publica currículo. A descrição da formação apoia-se em declarações concordantes do entorno. As listas de formados são exemplos, não enumerações completas.