De onde vem o modelo
O Real Madrid tem uma tradição de base mais antiga que os galácticos. O mito se chama Quinta del Buitre: cinco jogadores da casa — Emilio Butragueño, Míchel, Manuel Sanchís, Rafael Martín Vázquez e Miguel Pardeza — que subiram juntos em meados dos anos 1980 e ganharam cinco campeonatos seguidos com o Real. Butragueño, "El Buitre", o abutre, deu o nome à geração.
A Quinta del Buitre é em Madri o que a Class of 92 é em Manchester: a prova de que um dia foi possível, e a régua pela qual cada geração seguinte é medida. É também a razão pela qual o clube nunca abandonou a academia, embora ela quase não entregue titulares desde 2000.
Os anos 1990 trouxeram Raúl, Guti e Iker Casillas — três jogadores que juntos ganharam doze Ligas dos Campeões pelo Real. Depois disso, rareou. A política de galácticos a partir de 2000 não deixou espaço para os formados em casa, e a academia passou de fornecedora do time principal a fornecedora do mercado.
Em 2005 o clube mudou-se para a Ciudad Real Madrid, em Valdebebas, um complexo de cerca de 120 hectares na periferia que abriga o time principal, o Castilla e todas as categorias de base. É o maior centro de treinamento da Europa.
A estrutura
La Fábrica
O nome designa toda a base, do sub-11 ao sub-19. As equipes jogam os campeonatos espanhóis de base contra Atlético, Getafe, Rayo Vallecano e os demais clubes da região, e costumam vencê-los.
O que se descreve de forma concordante sobre a formação: o Real Madrid forma pela técnica, no jogo de posição, com uma ideia mais próxima do modelo do Barça do que a rivalidade sugere. A formação espanhola como um todo tem desde os anos 2000 o jogo de posição como língua comum, e o Real faz parte disso.
A captação é nacional e internacional. O Real Madrid tem uma rede de observadores que rivaliza com a do Barcelona e leva a Valdebebas jogadores de 12, 13 e 14 anos de toda a Espanha. O alojamento, a residencia, abriga cerca de 70 jogadores.
O Castilla
O Real Madrid Castilla é a equipe B. Joga na Primera Federación, a terceira divisão espanhola, por pontos contra times profissionais de adultos. É a mesma etapa de transição que oferecem o Benfica B, o Jong PSV e o Atalanta U23 — só que com uma história que remonta a 1980, quando o Castilla foi a primeira equipe B a chegar a uma final de Copa do Rei.
De 2019 a 2025, Raúl González treinou o Castilla. O maior goleador da história do clube, ele próprio formado na casa, trabalhou seis anos na terceira divisão para formar jogadores que em sua maioria deixariam o Real Madrid. Ele descreveu isso com sobriedade em entrevistas: sua tarefa é formar profissionais, não jogadores do Real Madrid. Em 2025 ele deixou o clube; seu sucessor foi Álvaro Arbeloa — como ele, formado na casa e ex-jogador do time principal.
O Castilla tornou-se a escola dos treinadores, não só dos jogadores. Vicente del Bosque, Rafael Benítez, Julen Lopetegui, Santiago Solari, Xabi Alonso: todos treinaram na base do Real ou no Castilla antes de assumir grandes clubes. Alonso tornou-se treinador do time principal em 2025, depois de dirigir o sub-19, depois a Real Sociedad B e de levar o Bayer Leverkusen ao título.
O modelo de negócio: vender e recomprar
Aqui o Real se diferencia de todos os outros clubes desta série.
Como o time principal quase não tem espaço para os formados em casa, o Real vende seus jogadores — mas com cláusulas de recompra. O jogador vai para outro clube por uma quantia moderada, e o Real mantém o direito de trazê-lo de volta por um preço fixado. Se ele evolui, volta. Se não evolui, o Real ficou com a venda e sem risco.
Os casos mais conhecidos: Dani Carvajal foi em 2012 para o Leverkusen e voltou em 2013, virou titular e ganhou seis Ligas dos Campeões. Álvaro Morata foi para a Juventus e voltou antes de ser vendido de novo. Casemiro foi emprestado ao Porto, voltou e chegou ao nível mundial. Lucas Vázquez foi para o Espanyol e foi recomprado.
Além deles, os que saíram e não voltaram, mas fizeram carreira: Juan Mata, Álvaro Negredo, Roberto Soldado, Marcos Alonso, Achraf Hakimi, Marcos Llorente, Nacho Fernández — que saiu em 2024 após 23 anos no clube — e Nico Paz, que foi para o Como em 2024 e virou peça importante.
O número de formados por La Fábrica atuando nas cinco grandes ligas europeias fica regularmente entre 40 e 50. Quase nenhuma academia produz mais. Quase nenhuma retém menos.
O que o Real Madrid faz diferente
A academia é fonte de receita e escola de treinadores. As duas coisas são ditas abertamente. O Real Madrid arrecada todo ano dezenas a centenas de milhões com a venda de formados e prepara no Castilla os treinadores que mais tarde dirigem o clube ou outros. O time principal está em grande parte desacoplado disso.
A exceção é a regra. A cada poucos anos um jogador de La Fábrica se firma no elenco — Carvajal, Nacho, Vázquez, Fran García. Em 2025 Gonzalo García chamou atenção no Mundial de Clubes. São jogadores valiosos, mas são exceções. O clube não planeja com eles.
A ideia de jogo é nacional, não do clube. Ao contrário do Barça, o Real não tem uma escola de treino própria. A base joga o jogo de posição espanhol, como Atlético, Sevilla e Valencia. O que distingue o Real é a densidade de talento pela captação, não o método.
A marca atrai. Crianças e pais querem ir para o Real Madrid, mesmo com pouca chance de chegar ao time principal. O clube usa isso: a captação tem uma oferta a que quase ninguém resiste, e os formados carregam o nome a vida toda.
As críticas
A academia não serve ao clube. É a crítica mais forte na própria Madri. Desde Casillas o Real Madrid não produziu uma estrela mundial da casa que tenha ficado. A Quinta del Buitre é citada como censura, não como lembrança.
O modelo só funciona para o Real Madrid. As cláusulas de recompra pressupõem que o jogador queira voltar e que o clube tenha o dinheiro. As duas coisas valem para o Real e para quase mais ninguém. Um clube que copia isso tem cláusulas que não consegue exercer.
A Espanha tem o mesmo problema que Portugal e a Holanda, só que maior. La Fábrica produz para a Premier League, a Serie A e a Bundesliga. O campeonato local se beneficia pouco. Ao contrário do Benfica, isso não é necessidade, é escolha.
A formação é boa, mas não é singular. A base do Real ganha os campeonatos espanhóis porque contrata os melhores, não porque treina melhor. O método é o padrão espanhol. Não é uma censura — o padrão é alto —, mas separa La Fábrica da La Masia, de Zingonia ou do Porto, que têm algo próprio no plano metodológico.
O Castilla fica na terceira divisão. O acesso à segunda escapa ao Castilla há anos, e o clube não parece persegui-lo com todas as forças. Para a formação, a segunda divisão seria melhor.
Aplicação: o que você pode aproveitar
Esta seção é a nossa interpretação.
De todos os clubes desta série, o Real Madrid é o menos transferível de forma direta. Restam duas ideias estruturais e um alerta.
A transição pode ser longa
O Castilla existe como equipe B desde 1930 e joga futebol de adultos há décadas. O Real nunca questionou essa etapa, mesmo com quase ninguém chegando ao time principal. Para clubes amadores: a equipe B não precisa produzir para fazer sentido. Ela precisa existir e acolher jovens. O resto vem ou não vem.
Treinadores vindos da própria base
Raúl, Arbeloa, Alonso, Solari — o Real Madrid usa o Castilla e a base como escola de treinadores. É a ideia que o Hoffenheim com Nagelsmann e o Freiburg com Schuster também perseguem. Para os clubes: o jogador que para aos 30 e conhece a casa é candidato a treinador. Ofereça a ele o sub-15, não o time de veteranos.
Desacople formação e resultado do time principal
A academia do Real não é medida pelos títulos do time principal. É medida pelos profissionais que produz. É uma postura que ajuda um clube amador: a base não está ali para salvar o time principal. Está ali para formar jogadores. Se alguns chegarem lá em cima, ótimo. Se não, ela funcionou do mesmo jeito.
O alerta: marca não substitui método
O Real Madrid ganha campeonatos de base porque as melhores crianças da Espanha querem ir para o Real. Um clube amador não tem essa atração. Quem acredita que um nome conhecido ou um belo campo substituem a formação será ultrapassado por clubes que de fato treinam. O Real pode se dar a esse luxo. Mais ninguém.
O essencial
- O Real Madrid tem uma das academias mais produtivas da Europa, que quase não leva jogadores ao próprio time principal. Isso é um modelo, não um fracasso.
- La Fábrica forma no jogo de posição espanhol, com captação nacional e internacional e a força de atração da marca.
- O Castilla joga na terceira divisão e é transição para jogadores e escola para treinadores: Raúl, Arbeloa, Alonso, Solari, Lopetegui, del Bosque.
- O modelo de negócio são as cláusulas de recompra: vender, observar, retomar quando compensa. Carvajal é o caso exemplar.
- A Quinta del Buitre é o mito pelo qual cada geração é medida — e que mostra o que falta desde 2000.
- Transferível: uma transição longa, treinadores vindos da base, desacoplar formação e resultado do time principal. Não transferível: a marca, as cláusulas, o dinheiro.
O que o Coach OS tem em comum com La Fábrica: o histórico do jogador permanece, mesmo quando ele deixa o clube. Quem volta, traz esse histórico consigo.
FAQ: perguntas frequentes
Fontes e leituras
- Real Madrid: apresentação de La Fábrica, do Castilla e da Ciudad Real Madrid no site do clube.
- CIES Football Observatory: relatórios sobre clubes formadores e formados nas cinco grandes ligas, nos quais o Real Madrid figura regularmente entre os primeiros.
- Entrevistas com Raúl González sobre seu trabalho no Castilla, 2019-2025.
- Sobre a Quinta del Buitre: reportagens e documentários sobre a história do Real Madrid nos anos 1980.
- Reportagens sobre o modelo de recompra e os casos Carvajal, Morata e Vázquez na imprensa esportiva espanhola.
Nota sobre as fontes: o Real Madrid não publica currículo. A descrição da formação apoia-se em declarações do entorno e no seu enquadramento dentro do padrão espanhol. O número de formados nas grandes ligas varia conforme o critério de contagem e a temporada.